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                                                                                                                            O Aborto que fez nascer o rock
Correio Braziliense, 9 de janeiro de 2000

de Bernardo Scartezini

 

Pioneiros do Punk - Em show realizado há 20 anos no centro comercial gilberto salomão, a banda brasiliense Aborto Elétrico começava a mudar a história do rock brasileiro.

 
      Fê Lemos (1962-), baterista, não queria fazer o show no Lago Sul:‘‘Lá, só dá playboy, não é nem um pouco rock’n’roll’’, comentou Naquele verão de 1980, Felipe Lemos não foi viajar. Trocou as praias pelo terceiro ano especial do Colégio Objetivo. Por isso, numa tarde de janeiro, Fê Lemos, filho de professores da Universidade de Brasília, estava em seu apartamento na Colina — bloco A, número 33 — quando Renato Manfredini Jr. lhe procurou.

      Fê e Renato conheceram-se anos antes, numa festa em abril de 1978. Fê queria saber de quem eram os LPs de Sex Pistols e Ramones que rolavam no som. Eram de Renato. Calhou que Renato e Fê conheciam um terceiro punk, Andre Pretórius. Figura rara: filho do embaixador sul-africano e espécie de clone de Johnny Rotten.

      Pretórius tinha uma guitarra elétrica. Renato sempre alugava os amigos nas festas, levando violão, pandeiro e querendo que a galera tirasse um som. ‘‘Não enche, Renato’’, era a réplica costumeira. Renato também tocava baixo. Fê ficaria encarregado do ritmo. Assim estava feita a banda. Numa tarde ociosa do outono de 1978, na Colina, deu-se ao power trio o nome Aborto Elétrico.

Assim, quando Renato foi atrás de Fê na Colina, no verão de 1980, o Aborto já ensaiava há um ano — desde que chegou da Inglaterra uma bateria para Fê. Quer dizer, ensaiava alguns fins de semana, no A-33 da Colina. Até Renato chegar com a bomba: dois shows marcados, sexta-feira e sábado, no bar Só Cana, Gilberto Salomão. ‘‘No Gilberto? Lá só dá playboy’’, reclamou Fê. ‘‘Mas lá as coisas acontecem’’, rebateu Renato.

      Eles levaram bateria, guitarra, baixo e dois amplificadores. Sem microfone — pois as músicas não tinham letras. Só precisavam de uma tomada. E a do Só Cana foi conseguida por vias tortas. O dono do bar era amigo de um amigo de Renato. O Só Cana era um bar pequeno, nos fundos do centro comercial. Nem cabia a bateria — acabou na calçada. ‘‘Por ironia, o Gilberto não era nem um pouco rock’n’roll. Nunca foi’’, ri Fê Lemos, revisitando o local do primeiro show, 20 anos depois. O Só Cana fechou as portas ainda em 1980.

      Então, pouco depois das 20h da sexta-feira do dia 11 de janeiro de 1980, Brasília começou a conhecer a geração coca-cola. Foram cinco temas instrumentais: Benzina, Admirável Mundo Novo, Here Come the Reds e It’s All Because of my (New) Sneakers. Para fechar, Now I Wanna Sniff Some Glue, dos Ramones (em versão instrumental). ‘‘Que a gente soubesse, Renato ainda não tinha escrito letra nenhuma, nem tentado cantar’’, lembra Fê — o único dos três fundadores do Aborto que resistiu a duas décadas de rock (Renato morreu em 1996; Pretórius, em 1987).

 

Nascimento de uma geração - Aborto Elétrico deu origem à Legião Urbana e Capital Inicial

 

      O baterista Fê Lemos volta ao local do primeiro show, que completa 20 anos na próxima terça, e constata: ‘‘Tivemos sorte porque fomos salvos pela música, salvos pelo punk’’ As pessoas pararam para ouvir aquele som tosco no gilberto salomão. De roqueiro, entre elas, só representantes da Blitz 64: Geraldo Ribeiro, o irmão Loro Jones e Gutje Woortman. Renato de jeans rasgados e camiseta branca. Pretórius sujo de sangue. O guitarrista tocava com tal fúria que as duas palhetas arrebentaram. Continuou tocando com os dedos. A guitarra bege clarinha ficou vermelha.

      Fê usava uma jaqueta: ‘‘Sentia frio.’’ Como o repertório era mínimo e o pessoal não arredava pé, repetiram a seqüência duas vezes, completando uma hora de show. Mas a segunda apresentação foi cancelada. Fê descobriu, na manhã de sábado, que estava com sarampo. Por isso sentira frio.

     Fê Lemos guarda até hoje uma cassete com o áudio do show em que os músicos entraram mudos e saíram calados. ‘‘A gente só queria tocar. E Renato era tímido demais’’, explica. A última coisa que se ouve na fita é Gutje gritando: ‘‘Isso aqui é punk rock!’’

      Vale lembrar que o Aborto Elétrico cabia numa Caravan. Foi o carro do professor Briquet de Lemos, pai do batera Fê, que levou o punk rock da Colina até o Gilberto Salomão no verão de 1980. A produção era realmente faça-você-mesmo, conforme o máximo mandamento punk. A bateria Premier de Fê, o baixo de Renato, a guitarra de Andre Pretórius, dois amplificadores, uma extensão e um benjamim. Qualquer lugar onde houvesse uma tomada era bom para show do Aborto Elétrico.

      E punks em 1980 não eram muitos, não. Mas a turminha começou a agir. Junto do Aborto, pipocou a banda Blitz 64, também egressa da Colina, com Geraldo Ribeiro, Loro Jones e Gutje Woortman. As duas faziam publicidade por meio das pichações. Nos muros, ‘‘AE’’ virou a marca registrada do Aborto Elétrico. ‘‘AE’’ também em camisetas brancas, escrito com grafite ou pintado em serigrafia.

      Mas 1980 também foi ano de baixa significativa. Bem no meio da ebulição roqueira, Andre (o nome era grafado sem acento) Pretórius voltou para a África do Sul. O primeiro show do Aborto acabou sendo o único com Pretórius. O guitarrista morreria em Berlim, em outubro de 1987, depois de overdose de heroína.

      O substituto natural para Pretórius no AE foi Flávio Lemos, irmão de Fê. ‘‘Eu nem sabia tocar direito’’, admite Flávio. Isso era o de menos: Renato passou para a guitarra e Flávio assumiu o baixo. ‘‘Eu sabia o que era punk e, por estar sempre por perto, sabia o que era o Aborto Elétrico. Afinal, os ensaios eram lá em casa’’, ri o baixista. Claro, o AE continuou com os Lemos. Quando a família se mudou para a QL 3 do Lago Norte, os ensaios foram junto. Em 1981, chegaram de temporada na Inglaterra os irmãos André e Bernardo Mueller. Com o ex-Blitz Gutje, mais Philippe Seabra e Jander Bilaphra, André montou a Plebe Rude. Com o ex-Blitz Geraldo Ribeiro, Bernardo fez o Escola de Escândalo. A turma — que no Só Cana resumia-se a meia dúzia de punks — ia crescendo.

      O fim depois do verão - Como toda banda seminal, o Aborto Elétrico tinha que acabar. O trio começou a ruir no verão entre 1981 e 1982. Dessa vez, ao contrário de 1980, Fê Lemos viajou. Quando voltou, Renato Manfredini Jr. já era Renato Russo e atendia por Trovador Solitário, dando shows de voz-e-violão na Universidade de Brasília. ‘‘Não dava para não me sentir traído’’, confessa Fê. O AE rachou. Fê e Flávio tentaram seguir em frente sem Renato, que, então, não só perdera a timidez inicial e começara a cantar, como já havia composto Geração Coca-Cola e Que País é Este, entre outras pérolas contestatórias.

      Para o posto de Renato, Fê e Flávio tentaram Ico Ouro Preto. Mas... Num show no Centro Olímpico da UnB, em 1982, descobriu-se que Ico tinha o chamado stage fright — quer dizer, pelava-se de medo de subir num palco. Naquela noite no C.O., o público do Aborto Elétrico beirava as duas mil pessoas.

      No lugar de Ico, entrou... Renato Russo. ‘‘Fui correndo atrás dele, pedir para ele tocar’’, conta Fê. ‘‘Ele fez uma cara de quem ganhou a parada e foi com a gente. Foi perfeito. E foi o último show do Aborto Elétrico. Pois sem Renato, o Aborto poderia ser qualquer outra coisa, mas não o Aborto.’’

      Sem Renato, Fê e Flávio Lemos juntaram-se ao guitarrista Loro Jones e ao cantor Dinho Ouro Preto (irmão de Ico) para formar o Capital Inicial. Renato, de sua parte, conseguiu agitar como Trovador Solitário, cantando temas como Eduardo & Mônica. Mas logo formaria outra banda. Começou a tocar com o guitarrista Dado Villa-Lobos (da banda Dado & o Reino Animal) e o baterista Marcelo Bonfá (SLU). Depois entraria Renato Rocha, um doidão da 408 Norte, para o baixo, deixando Renato de mãos livres. Era a Legião Urbana, que se tornaria a maior banda da história do rock Brasil, com dez milhões de cópias vendidas dos nove álbuns lançados em 14 anos de carreira — mais dois, Uma Outra Estação e Acústico MTV, que saíram depois da morte de Renato Russo (outubro de 1996).

      Segundo Fê, Legião e Capital dividiram sem maiores problemas a herança do Aborto Elétrico. Renato levou as composições praticamente suas: Geração Coca-Cola, Que País É Este, Conexão Amazônica e Tédio (com um T bem Grande pra Você). O Capital ficou com Fátima (criada a partir de linha de baixo de Flávio, sobre a qual Renato escreveu a letra em dez minutos), Música Urbana, Veraneio Vascaína e Ficção-Científica.

      ‘‘Tivemos sorte’’, suspira Fê, que, como o irmão, continua no rock’n’roll, agora com o Capital Inicial. ‘‘Sorte porque fomos salvos pela música, salvos pelo punk. O punk despertou em nós a esperança de termos uma banda. Porque sonhar em ter banda, todo mundo sonha. O Aborto Elétrico, com o Renato, tornou possível isso’’, completa Flávio. Ou, como diz Fê Lemos... ‘‘Alguém tinha que ir lá e fazer. A gente foi lá e fez.’’

FIM

 

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