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                                                                                                                           A História do Rock-Brasília

 

Como Nasce o Aborto

Edição de janeiro, 2000 - Primeira parte

de Carlos Marcelo

 

Brasília, madrugada fria, final dos anos 70. Dentro de um dos quatro quartos do apartamento 202 do bloco B da Super Quadra Sul 303, dois amigos pegam um violão, um pandeiro e ligam um gravador portátil. Eles começam a tocar, conversar e sonhar. Como em programa da rádio BBC de Londres, o mais novo pergunta ao mais velho: So, Renato, what will you wanna be when you grow up? (``E então, Renato, o que você quer ser quando você crescer? ´´) I wanna be famous! I wanna be a rock star!!! (`` Quero ser famoso! Quero ser uma estrela do rock! ´´ ). O dono da resposta e do quarto se chama Renato Manfredini Júnior. Nasceu no Rio de Janeiro em 1960 e mora em Brasília desde março de 1973, quando sua família trocou a Ilha do Governador pelo clima seco do cerrado. O ``entrevistador´´, Andre Fredrik Pretórius, nasceu na África do Sul um ano depois de Renato. Fisicamente, não podiam ser mais diferentes: o primeiro é loiro, porte atlético, tem quase dois metros de altura. O segundo, de cabelos pretos e encaracolados, mede 1,76m. Aparenta até ser mais baixo por causa da magreza e jeito desengonçado.

       Mas André e Renato são amigos não só porque falam inglês com fluência. Eles compartilham um segredo de quatro letras chamado punk, que tinha acabado de dinamitar o conservadorismo do rock mundial com a anarquia do Sex Pistols e uma trupe de bandas iradas e debochadas. Naquele quarto de janelas fechadas (para não incomodar os vizinhos) estava sendo escrita a primeira página do Aborto Elétrico. É o capítulo inicial da história de um movimento chamado Rock-Brasília, que nasceu na capital do Brasil e foi liderado pela Legião Urbana, único grupo nacional a ultrapassar a barreira dos dez milhões de discos vendidos.

      Na primeira parte dessa reportagem especial sobre a história do rock-Brasília, você não vai ler uma linha sequer a respeito de um cantor chamado Renato Russo. Até porque, até o início dos anos 80, ele não existia - o nome artístico, homenagem assumida aos filósofos Jean-Jacques Rousseau e Bertrand Russell, só pegou quando a Legião se mudou para o Rio para gravar o primeiro disco. Quem ajudou a reunir uma turma com interesses em comum e fez surgir a geração do rock-Brasília que estourou nacionalmente na década de 80 foi o Júnior, filho do Seu Renato e Dona Carminha, chamado pelos amigos de Renatinho ou Manfredo. Foi o Júnior que, tempos depois, batizaria toda uma leva de jovens urbanos como a Geração Coca-Cola mas, curiosamente, detestava refrigerante. Em casa, só tomava suco e mate gelado.

      Com uma das paredes tomadas por fotografias de ídolos do rock e uma vasta coleção de clássicos da literatura mundial, o quarto do apartamento 202 do Bloco B da SQS 303 era ponto de peregrinação dos jovens brasilienses que tentavam escapar da febre Dancin´Days das discotecas e da falta do que fazer numa cidade de apenas 18 anos de idade, com dois shoppings-centers e cerca de 700 mil habitantes. ``Ir para a casa do Renato era um festival para os sentidos. Ele botava músicas e começava a contar histórias, coisas que o Sid Vicious tinha feito e dito, como era a turma do Sex Pistols...´´, lembra Dinho Ouro Preto, vocalista do Capital Inicial. ``Era cada figura estranha que entrava na minha casa! ´´, espanta-se até hoje D. Carminha.

      BEATLES NOS CORREDORES O acervo do quarto de Renato era renovado periodicamente com biografias de estrelas do cinema e jornais ingleses como Melody Maker e New Musical Express, comprados com o dinheiro da mesada (um salário mínimo) que Renato recebia do pai e também com o salário de professor da Cultura Inglesa, onde deu aulas por dois anos antes de ser demitido por levar os alunos a cantar Beatles pelos corredores da escola. O domínio do idioma começou no período (1967-1969) que a família Manfredini morou no subúrbio nova-iorquino de Queens e assistia a musicais na Broadway e no Radio City Music Hall. Mas o inglês de Renato foi consolidado mesmo ao chegar em Brasília. A tarde, ao som de Bach e Beethoven, ele lia a Enciclopédia Britânica no original e também devorava clássicos de escritores como Hemingway, Shakespeare e Byron - o poeta favorito do futuro poeta.

      No começo, o quarto de Renato era visitado apenas por Eric Russell e outros roqueiros fictícios. Os personagens foram criados pelo cantor quando tinha 15 anos para aliviar o sofrimento causado por uma doença chamada epifisiólise, deslocamento do osso que faz a parte mais próxima da articulação do fêmur se descolar da bacia. Ele foi operado, mas a cirurgia para implantação de três pinos de metal para sustentação do osso teve resultado desastroso: um pino ficou torto; outro, fora do lugar. O terceiro atingiu o nervo ciático, provocando dores terríveis. Renato ficou exatamente um ano e meio doente: seis meses na cama, sem movimento nas pernas; depois, mais seis meses na cadeira de rodas e outros seis, andando apenas de muletas. ``No final, o Júnior ficou puxando a perna um pouco de lado. As pessoas achavam que ele era meio desengonçado, mas na verdade tinha sido vítima de erro médico´´, conta D. Carminha Manfredini. Superado o trauma físico, era hora de Renato deixar os amigos imaginários dentro de casa e procurar em Brasília uma turma de verdade, uma turma de carne e osso - e alfinetes.

      ESTRANHOS NA CIDADE Criados para alojar as famílias de professores e funcionários da Universidade de Brasília, os quatro prédios erguidos na Asa Norte ficavam em área da UnB conhecida como Colina. ´´Lá era diferente das outras quadras de Brasília. Não baixava polícia, a gente podia se divertir...``, lembra o baterista da Plebe Rude, Carlos Augusto Woorthman, o Gutje, que morava no Bloco B. Além dele, também residiam por lá em 1978 os irmãos Felipe (Fê) e Flávio Lemos, respectivamente bateria e baixo do Capital Inicial. Fê Lemos tinha acabado de voltar da cidade inglesa de Leicester, a duas horas de Londres. ´´ Eu saí de Brasília ouvindo progressivo e heavy metal. Voltei punk, usando coleira de cachorro no pescoço e alfinetes no corpo. Era um estranho na minha velha cidade``, conta Fê, enumerando os shows que assistiu na Inglaterra: The Clash, Damned, Stranglers, Buzzcocks... ´´ Só não vi Sex Pistols porque eles não tocavam mais``.

Mas é exatamente a única banda punk que Fê não viu tocar que o faz conhecer Renato Manfredini. Em uma festa na Asa Sul, o baterista dá de cara com um disco dos Pistols e sai procurando o dono da preciosidade. Acaba encontrando: era Renato, que passa a freqüentar a Colina e trocar discos com Fê e os irmãos Loro e Geraldo Ribeiro. ´´ Ele tinha uma discoteca vastíssima de sons dos anos 70 que eu não conhecia, mas não tinha nada de Iggy Pop, Damned...``, lembra Fê.

      Em entrevista publicada pela Bizz em abril de 1989, Renato Russo lembra dessa época: ``Eu ia para a Colina, eram apenas umas três ou quatro pessoas que gostavam de rock: o Fê, o Loro (Jones, guitarrista do Capital Inicial) e o Geraldo, do Escola de Escândalo, que era irmão do Loro. E ficávamos o tempo todo conversando sobre a vida, todos com 16/17 anos, falando dos pais, da namorada, tentando conseguir alguma coisa para fazer. Depois de ficar tardes e tardes ouvindo e falando sobre música, o passo natural era montar uma banda...´´.

       ENSAIOS NA EMBAIXADA Por meios diferentes, Fê e Renato já conheciam Andre Pretórius: Fê, por intermédio do amigo André Muller (futuro baixista da Plebe Rude). Já Renato tinha esbarrado com o filho do embaixador da África do Sul na Taverna, bar da Asa Sul. Impressionado com o visual punk de Pretórius (``um Sid Vicious louro´´) e da namorada dele, Virginie Rio Branco, perguntou se ele gostava dos Sex Pistols: ``Yeah!´´, foi a resposta. Como a bateria Premier que Fê tinha comprado na Inglaterra ainda não tinha chegado, Pretórius e Renato começam a ensaiar juntos.

      Os dois passavam tardes inteiras tocando as mesmas músicas - podia ser Now I Wanna Sniff Some Glue, dos Ramones ou alguma do repertório do Damned,Buzzcocks ou Slaughter and the Dogs. De vez em quando, eram acompanhados na bateria por Alex De Seabra, irmão de Philippe Seabra (futuro guitarrista da Plebe), que conhecia Pretórius da Escola Americana de Brasília, onde estudavam os filhos de diplomatas brasileiros e estrangeiros. ``A gente fez uns ensaios em uma das salas da embaixada da África do Sul, tentava tocar alguma coisa do Edgar Winter Group (grupo de hard rock liderado pelo irmão do guitarrista Johnny Winter)´´, lembra Alex, que logo se mudou para os Estados Unidos.

      Embaixo do bloco A da Colina, Fê, André e Renato começam a pensar em um nome para a banda. Fê lembra de um grupo americano, Electric Flag, (Bandeira Elétrica´´ ) e diz que podia ser algo parecido. Bandeira Elétrica, Tijolo Elétrico... Pretórius, então, decreta: `` O nome vai ser Aborto Elétrico!´´. ``A gente olha um para cara do outro e fala: `yeah!´´´. Além da imagem forte, o nome Aborto Elétrico também foi escolhido pelas iniciais AE, que eram pichadas por toda a cidade utilizando o mesmo tipo de letra do movimento anarquista. Segundo Fê, a versão de Renato para a criação do nome - citação a um tipo de cassetete utilizado pela polícia brasiliense em 1968 que dava choques e acabou fazendo uma jovem grávida perder o bebe - não era verdadeira.

      Os primeiros ensaios acontecem em 1979 no apartamento 33 do bloco A, endereço do baterista. Desses ensaios, surgem quatro músicas próprias. Duas com letras em português, Benzina (``Não quero cocaína/Não quero benzedrina/Não quero heroína/Vou cheirar benzina...) e Admirável Mundo Novo (``Não adianta você tentar vir me aconselhar/Se eu seguir o seu conselho/eu vou me ferrar... ´´) e duas em inglês: Here Comes The Reds, sobre militantes comunistas, e (It´s All Because of My New) Sneakers, singela homenagem ao par de tênis que Pretórius tinha acabado de comprar.

        SANGUE NAS CORDAS Em janeiro de 1980, depois de quase um ano de ensaios, surge enfim um local para a primeira apresentação pública do Aborto Elétrico: o bar Só Cana, no Centro Comercial Gilberto Salomão, no Lago Sul, tradicional ponto de encontro dos playboys da cidade. ``Como a gente só tocava cinco músicas, elas foram repetidas duas vezes. Mas foi maravilhoso ´´, lembra Fê. Pretórius se empolgou tanto que quebrou a palheta e cortou os dedos nas cordas. Mesmo sangrando, não parou de tocar. Perplexo, o público que estava no bar demorou para entender que estava presenciando o batismo da primeira banda punk brasiliense. Mas a reação foi mais positiva do que negativa. ``O pessoal reagiu com: `E! De novo!!!´, porque brasileiro gosta muito de uma zona. Então, dá-lhe zona´´, ironizou Renato na Bizz em 1989, lembrando o primeiro show. O Aborto foi convidado a repetir a dose no Só Cana na semana seguinte. Como Fê estava doente, com catapora, a apresentação teve que ser adiada indefinidamente - e este acabou sendo o primeiro e último show de André Pretórius como guitarrista do Aborto Elétrico.

      Na Segunda formação da banda, Renato troca o baixo pela guitarra e Flávio, irmão de Fê, assume o baixo. Os ensaios passam a acontecer no novo endereço dos irmãos Lemos, que saíram da Colina e foram morar em uma casa no Lago Norte. Pelo menos dois clássicos do rock-Brasília nasceram nessa fase: Veraneio Vascaína e Fátima. Flávio lembra como foi criado um dos maiores sucessos do Capital. ``Fátima foi impressionante. Eu comecei a tocar e o Fê começou a acompanhar. O Renato falou: `Opa, continuem tocando isso aí que eu tô pensando num negócio aqui.´ A gente continuou tocando e ele pegou um papel, fez umas marcações do que seria a métrica da letra, aí pensou um pouco e começou a escrever, e a gente tocando. Depois de cinco minutos tocando, a gente começou a cansar; eu parei. E ele falava: `continua, continua...´ E continuou escrevendo, quase como se estivesse psicografando. Em dez minutos ele escreveu aquela letra longa, do começo ao fim... de onde veio eu não sei, mas só sei que ele estava bem inspirado´´.

      Começaram a aparecer outras músicas que seriam gravadas posteriormente pelo Capital e Legião Urbana: Conexão Amazônica, Geração Coca-Cola, Música Urbana, Metrópole, Ficção Científica, Tédio Com Um T Bem Grande Pra Você (acrescida do verso-desabafo no final: ``Moro em Brasília! Moro em Brasília!´´) e Que País é Este? (o grande hit dos shows, com direito a citação do Hino Nacional na última estrofe)... ``Quando o Flávio entrou, o repertório cresceu rapidamente, de quatro passou para doze músicas, depois para quase trinta´´, lembra Fê Lemos. Entre as que jamais foram gravadas, algumas tinham arranjos e letras mais elaboradas (Construção Civil e Helicópteros No Céu), outras bem simples e diretas (Pão Com Cola, O Que Eu Quero) e ainda algumas de títulos engraçados, a exemplo de Piauí Imaginário e AD (tocada em um acorde só e basicamente um instrumental que se repetia, só o refrão ia aumentando: ``ad, add, addd, adddd...´´). Curiosidade: a banda tentou incluir duas vocalistas, Ana Resende e Cris Brenner, então namorada de Fê. Elas ensaiaram Geração Coca-Cola escrita de próprio punho por Renato em uma folha de caderno espiral, mas ambas desistiram logo depois do primeiro ensaio, na casa de Fê, no Lago Norte. ``Ninguém avisou que não ia dar pra escutar nada, a voz era engolida pelos instrumentos. Foi uma decepção total´´, lembra Ana.

      ME EMPRESTA UMA TOMADA? Os shows também aconteciam com mais freqüência. Havia as apresentações-relâmpago ao ar livre, onde as bandas chegavam e pediam uma tomada emprestada para ligar os amplificadores na calçada de lanchonetes como o Food´s, na Asa Sul. Foi lá que Dado Villa-Lobos e Dinho Ouro Preto, filhos de diplomatas e chamados ironicamente de figurantes pelos mais velhos da turma, assistiram pela primeira vez a um show do Aborto Elétrico.

      As bandas punks também tocavam em colégios, como em um festival interno do Objetivo. ``Eu estava vendo umas bandinhas, de repente entrou o Aborto Elétrico para tocar. Aquilo destoava de tudo, era muita energia. O Fê batia forte naquela bateria Premier com bumbo de 24 polegadas, parecia um tanque de guerra. Era chocante´´, recorda Marcelo Bonfá, até então um fã de Carpenters e Pink Floyd. Filho de um professor de sociologia que tinha se tornado funcionário do Banco do Brasil, Marcelo Augusto Bonfá morou no interior de São Paulo até se mudar para o Planalto Central em maio de 1977. ``Brasília era muito doida nessa época, parecia um Babylon 5: tinha alienígena em todos os cantos´´, compara o futuro baterista da Legião Urbana.

      E os alienígenas começaram a eleger seus pontos de encontro. Foi o caso do Cafofo, bar improvisado em subsolo da quadra comercial da 407 Norte. O proprietário do local era um conhecido músico da cidade, o tecladista e arranjador Rênio Quintas. Ele cedeu as tardes de Domingo para os punks candangos fazerem barulho e tomarem muita cerveja. ``Começava as quatro da tarde e ia até as oito da noite. Não dava para ouvir nada, a guitarra era altíssima... para mim, era muito ruim. Mas tinha que dar espaço para essa galera´´. A farra na Asa Norte reunia mais de cem pessoas todo Domingo. ``A turma toda cabia lá dentro, no porão. Do lado de fora, a zoeira soava como o motor de um avião, com flanger (efeitos especiais)!´´ compara Bonfá. A zoeira durou até que um dos donos de bar ao lado do Cafofo chamou a polícia para recolher os punks. ``Chegaram três Veraneios Vascaínas (camburões) e saíram lotadas de moleques, que só foram liberados pelos pais na delegacia´´, lembra Rênio.

      Nessa época, o Aborto Elétrico dividia os toscos e improvisados palcos brasilienses com outro grupo punk: o Blitx 64. Formado pelo baterista Gutje Woorthman e pelos irmãos Loro (guitarra) e Geraldo Gerusa Ribeiro (baixo), que se conheceram na Colina, o Blitx não tinha vocalista (apesar de Gutje dar uns berros durante os shows). O repertório tinha doze canções, entre elas Lindo Lixo e Romeu e Julieta, adaptação de uma antiga marchinha carnavalesca. ``A gente começou quatro meses depois do Aborto, carregávamos os equipamentos juntos para os shows. Colocávamos tudo no carro, pedíamos uma tomada emprestada, ligávamos os amplificadores e mandávamos bala´´, conta Geraldo. ``A gente fazia de tudo. Assustava as menininhas dizendo que ia vomitar dentro das bolsas delas, esvaziava extintor, explodia lâmpadas fluorescentes para acordar os vigilantes da UnB... mas a gente não botava fogo em índio``, ironiza Gutje. ``Eram duas turmas bem distintas. A do Blitx tocava zona total, era mais divertida de sair a noite. Já a do Aborto tinha a informação, era mais intelectualizada e preocupada com a imagem``, compara André Mueller. ``Para mim, o Blitx foi a melhor banda de Brasília´´, elege outro futuro integrante da Plebe Rude, o vocalista Jander Bilaphra.

      ORIGINAIS E FIGURANTES A essa altura, porém, a turma não era mais restrita aos que tinham se conhecido na Colina. Havia outros núcleos espalhados pelo Plano Piloto. Na 213 Sul, por exemplo, Dinho Ouro Preto e Dado Villa-Lobos dividiam o mesmo apartamento e logo se sentiram atraídos pelos representantes brasilienses da revolução punk. O mesmo aconteceu na 104 Sul, onde moravam os irmãos Pedro e Bi Ribeiro (baixista dos Paralamas), e na 316 Norte, quadra de Marcelo Bonfá. De menos de dez pessoas, a turma pulou para mais de quarenta em menos de seis meses. Os mais novos eram chamados com ironia de figurantes ou satélites por não pertencerem a turma original que freqüentou a Colina entre 1978 e 1980.

      As noites de sexta tinham programa obrigatório para a turma: o cinema da Cultura Inglesa, para assistir a filmes de cineastas como Wim Wenders, Werner Herzog e Fassbinder. Depois, era hora de procurar uma festa e, para encerrar a noite, discussões sobre livros de Dostoiévski e J.D. Salinger as margens do Lago Sul, com os carros fazendo rodas com os faróis acesos nas chamadas quebradas. ``Foi a época mais intelectualizada da minha vida ´´, reconhece Dinho. “A gente ficava em ruínas como as do Centro Olímpico da UnB com o som do carro ligado, tocando o disco Talking Heads 77, tomando vinho barato e conversando´´, lembra Dado Villa-Lobos”.

      Enquanto isso, as coisas com o Aborto Elétrico não iam tão bem, apesar da crescente popularidade do grupo. Em show na cidade-satélite do Cruzeiro Velho, Fê ficou irritado com a displicência de Renato,

que dizia estar distraído por conta do aniversário da morte de John Lennon, e arremessou uma baqueta no rosto do cantor da sua banda quando o vocalista errou uma letra. Renato não reagiu na hora. A noite, porém, sentenciou ao amigo: `` Fê, o Aborto Elétrico acabou´´. O baterista conseguiu dissuadir o vocalista e eles retomaram a banda, mas foram as primeiras rachaduras sérias em uma amizade tida como indestrutível. ``Fê implicava muito, mas o Renato também era difícil. Durante os ensaios, eles tinham discussões que duravam horas e horas. Os dois, que eram muito próximos, de repente não estavam mais se entendendo´´, narra Ico Ouro Preto, guitarrista da última formação do Aborto, atualmente trabalhando como fotógrafo de moda em Paris.

      Ico tinha sido chamado para o Aborto apesar de seu estilo ter muito pouco a ver com os três acordes do punk - ele era estudante de violão clássico, fã de Paco De Lucia. Gostava de passar tardes inteiras tocando com Renato. ``Muitas músicas a gente tocava no violão, só depois virava rock. Eram horas de improvisação gravadas em cassete. Depois, a gente tirava os pedaços que a gente queria e via que tinham nascido músicas´´, lembra o irmão de Dinho Ouro Preto, do Capital. ``O Renato não tocava muito bem, mas tinha o senso da música. Ele sabia o que queria´´.

      A última e decisiva briga interna do Aborto Elétrico aconteceu por conta da letra de Química. Os versos ``(...) Não saco nada de Física/Literatura, gramática/Só gosto de educação sexual/E eu odeio química...´´ foram considerados infantis por Fê. ``Eu achei Química uma bosta, não tinha nada a ver comigo. Aí eu falei para ele (Renato) que não tinha gostado do refrão, achava falso, não me identificava com aquilo como com Tédio, Que País É Este e outras músicas. Aí sim foi o início do fim, quando houve essa contestação da minha parte na obra do Renato, porque até então o que ele fazia e dizia era o que a gente tocava´´, revela o baterista. ``O Fê estava mais interessado em fazer camisetas, e eu ficava lá, pedindo para ensaiar. Aí eu disse: quer saber de uma coisa? Vou sair!´´, lembrou Renato a Bizz.

      Renato saiu e o Aborto continuou como trio: Flávio, Ico e Fê, que arriscava uns vocais por trás da bateria. Assim fizeram vários shows. O vocalista, porém, voltaria para uma despedida arrebatadora, diante de mais de cinco mil pessoas, no Centro Olímpico da Universidade de Brasília (UnB). Ele foi convocado as pressas pelo baterista para substituir Ico. O guitarrista tinha simplesmente sumido algumas horas antes da apresentação (``Acho que eu não fui muito correto, mas meu lance era o ensaio, tinha pânico de tocar ao vivo´´, defende-se Ico). Fê lembra com exatidão desse momento crucial da história do Aborto: ``Eu procuro o Renato e digo: `O Ico sumiu, vamos tocar, pega a guitarra, tá todo mundo esperando o Aborto Elétrico!´. Aí ele me olha, dá um sorrisinho irônico e fala: ``Vamos embora, Fê´...´´.

      O show foi um sucesso absoluto, mas Renato tinha outros planos na cabeça. Largou definitivamente o Aborto Elétrico e tomou rumo individual. Passou a ser conhecido como Trovador Solitário. Acompanhado apenas pelo violão, o Trovador desfiava em bares e palcos improvisados o repertório do Aborto e também mostrava canções que seriam consagradas nacionalmente com a Legião Urbana - a exemplo de Faroeste Caboclo, Eu Sei (até então conhecida pelo nome de 18 e 21) e Dado Viciado.

      Era bastante aplaudido pelo público brasiliense, mas Renato queria mais. Chamou o baterista Marcelo Bonfá, que já tocava na UnB e outros palcos improvisados com Os Metralhas de André Muller (futuro baixista da Plebe Rude). ``A gente fazia um punk bem visceral, mas as letras tinham cunho social, parecia coisa de sociólogo´´, compara Henrique Hermeto, vocalista e guitarrista na banda Os Metralhas (que também era conhecida como SLU - Serviço de Limpeza Urbana). Bonfá saiu então para montar uma banda com apenas dois integrantes fixos - os outros músicos, entre eles guitarristas e tecladistas, se revezariam em participações especiais. Seriam muitos os convidados, dezenas deles, uma verdadeira legião de jovens amigos. A Legião Urbana.

 

      Na segunda parte: O primeiro show da Legião Urbana termina em prisão. Acampamentos: (Pouco) Sexo, (Algumas) Drogas e (Muito) Rock`n`Roll. Como um garoto tímido e diabético, Dado Villa-Lobos, se tornou guitarrista da maior banda de rock do Brasil. O sucesso da primeira temporada de shows de Legião, Plebe e Capital produzido pelas próprias bandas.

      De todas as errantes trajetórias da turma do rock-Brasília, nenhuma foi tão conturbada quanto a de Andre Pretórius, um dos fundadores do Aborto Elétrico e primeiro parceiro musical de Renato Russo. Nascido no dia dois de agosto de 1961, Andre Fredrik Pretórius era filho do embaixador da África do Sul e estudou na Escola Americana de Brasília entre 1978 e 1980. Lá, fez amigos como André Muller. ``A gente tinha muita afinidade porque, assim como eu, ele gostava de uns sons mais experimentais do que os que rolavam no punk´´, lembra o baixista da Plebe Rude.

      Com quase dois metros de altura, olhos azuis e cabelos quase brancos de tão loiros, André era também o sex-symbol da turma. ``Ele era uma coisa! Tinha os traços perfeitos! Lembrava o Billy Idol, só que era muito mais bonito!´´, compara a produtora de moda Helena Resende, uma das meninas que mais conviveu com a turma de punks brasilienses.

      Forçado pelos pais, Pretórius volta para a África do Sul, ainda um país movido pelo apartheid, e participa de treinamentos de combate para enfrentar a guerrilha de Moçambique e Angola. Passa dois anos trabalhando no serviço de inteligência sul-africano, decodificando fitas de máquina de escrever utilizadas pelos inimigos e retorna a Brasília em 1982. ``Quando voltou ao Brasil, ele estava muito mudado. Era uma pessoa diferente, atormentada´´, analisa Virginie Rio Branco, namorada de Pretórius na época e futura mulher do sul-africano. Logo ele se muda novamente. Vai morar em Washington com os irmãos do Philippe Seabra, Alex e Ricky, onde continua tocando até mergulhar no consumo de heroína. Muda-se para a Alemanha, onde morre de overdose em outubro de 1987. Algumas de suas composições, entre elas parcerias inéditas com Renato Russo, estão registradas em fitas cassete batizadas de Radio Leucemia e guardadas com carinho pelos amigos. ``De todos os meninos que freqüentavam a nossa casa, ele era o mais especial. Um gigante de alto, nem cabia na cama: tinha que dormir em lençol estendido no chão. Mas era muito doce e triste. Se eu pudesse ter feito alguma coisa por ele..´´, relembra D.Carminha, mãe de Renato, o primeiro grande amigo de Pretórius na turma.

      Uma das características mais marcantes do início do rock-Brasília eram as festas promovidas pelos punks candangos. Na verdade, nem precisavam ser promovidas - na maioria das vezes, eles entravam de penetras em festas de playboys e pediam para colocar uma fita cassete no som. Quando o anfitrião percebia, era tarde demais: um bando de gente mal-vestida estava batendo cabeça, se jogando na parede e tomando todas ao som dos últimos singles lançados na Inglaterra e nos Estados Unidos. As festas eram tão importantes que foram citadas em pelo menos três músicas da época: A Dança (``então é outra festa, é outra Sexta-feira/que se dane o futuro/você tem a vida inteira...) e Eduardo e Mônica (``festa estranha, com gente esquisita/Eu não tô legal, não agüento mais birita... ´´), ambas da Legião, e Johnny Vai a Guerra, da Plebe Rude (``festas cheias de soldados/que insistem em batalhar... ´´). O baixista da Plebe, André Mueller, era um dos mais requisitados DJs das festas e andava sempre com fitas com os principais hits da turma. Eis a Relação de músicas que não poderiam faltar numa autentica festa punk brasiliense:

      Lado A Clash - London´s Burning; Generation X - Ready, Steady, Go; Buzzcocks - Boredome; Sex Pistols - Pretty Vacant; Dead Kennedys - Police Truck; Damned - New Rose; Au Pairs - Dear John; Specials - Night Club; PIL - Death Disco Lado B; Selector - On My Radio; Tom Robinson Band - 2,4,6,8 Motorway; Echo & The Bunnymen - Rescue; Damned - Stab Your Back; Clash - Protex Blues; Stranglers - Grip; Madness - One Step Beyond; Sham 69 - Borstal Breakdown; Joy Division - She´s Lost Control.

      Ramones: Joey, Johnny, Dee Dee e Tommy jamais imaginariam que, quando começaram a tocar Nova York em 1974, iriam influenciar não só o rock americano como também dezenas de bandas na Inglaterra e no Brasil. O rock-Brasília também deve muito aos Ramones: o Aborto Elétrico tocava Now I Wanna Sniff Some Glue logo nos primeiros ensaios. ``A gente só gostava das bandas inglesas, mas os Ramones eram a exceção americana´´, lembra o baterista Fê Lemos.

      Sex Pistols: Armação bolada pelo empresário Malcolm McLaren, o Sex Pistols começou a virar banda de verdade quando assinou com a Emi e lançou em 1976 o single Anarchy in the U.K. Steve Jones (guitarra), Paul Cook (bateria), Glen Matlock (baixo, depois substituído por Sid Vicious) e Johnny Rotten (vocal) colecionaram dezenas de histórias de arruaças e tumultos, todas recitadas de cabeça por Renato Russo aos outros integrantes da turma de punks brasilienses.

      Damned: Grupo britânico formado em 1976, que começou abrindo para os Pistols. O primeiro single da banda, New Rose, é considerado o primeiro single do punk britânico e chegou a ser tocado em alguns shows da Plebe Rude. Teve um disco, Music For Pleasure, produzido por Nick Mason (Pink Floyd), em improvável união do punk e do progressivo.

      Stranglers: Formada em 1976 na cidade inglesa de Guildford, a banda tinha um vocalista de garganta poderosa - Hugh Cornwell. O primeiro disco, Rattus Norvegicus, saiu em 1977, mas foi o segundo, No More Heroes, que foi adotado como discoteca básica pelos brasilienses.

      Talking Heads: Os estudantes de design David Byrne, Chris Franz e Tina Weimouth se conheceram na universidade em Rhode Island, mas foi em Nova York que resolveram começar a fazer rock, auxiliados pelo pianista Jerry Harrison. O primeiro disco do grupo, Talking Heads´77, era consumido sem moderação pela turma brasiliense, principalmente por Dado Villa-Lobos, Loro Jones e Fê Lemos - os dois últimos se inspirariam nos Talking Heads para buscar sonoridade mais clean e menos agressiva para o Capital Inicial.

      Buzzcocks: Assim como Stranglers e Damned, o Buzzcocks também começou na Inglaterra em 1976. Os vocais melódicos de Pete Shelley ajudaram a forjar o punk-pop em músicas como Orgasm Addict e Ever Fallen in Love (depois regravada nos anos 80 pelo Fine Young Cannibals). Por trás de ``Comecei a tocar bateria ouvindo Buzzcocks´´, afirma Marcelo Bonfá. ``Foi a primeira banda que me mostrou que era possível falar de amor utilizando a linguagem punk´´, acrescenta Philippe Seabra, da Plebe Rude.

      Comsat Angels: Formada na cidade inglesa de Sheffield, onde morou por dois anos o baixista da Plebe Rude, André Mueller. Tinha sonoridade mais experimental, com utilização de teclados bem marcantes, a exemplo dos registrados no disco de estréia, Waiting For A Miracle. Os arranjos inspiraram várias músicas do primeiro disco da Legião Urbana - o baterista, Marcelo Bonfá, era o maior fã de Comsat Angels que a banda poderia Ter decolado no Brasil.

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