O mega-estrelato mexeu muito com a cabeça de vocês?
DADO - Mega-estrelato!?!? (Risos)
E não foi?
DADO - O que aconteceu foi que as músicas começaram a tocar no rádio
- "Tempo Perdido", depois "Eduardo e Mônica", depois
veio "Daniel na Cova dos Leões", "Índios"... Até
então, estávamos acostumados a tocar em lugares como Metrópolis, onde
cabem 1.800 pessoas, estava sempre lotado. Fomos para um outro estágio,
onde você passa a tocar em ginásio para dez mil pessoas, lotado também.
Isso não mexe muito com a cabeça, não. Não senti assim. Sei lá,
continuamos trabalhando, fazia parte do trabalho.
RR - Na verdade,
aqui no Brasil você vai aprendendo conforme vai fazendo. Então, não
adianta! Mesmo todas as coisas que nós saíamos sobre rock'n'roll e tudo
mais - porque é o nosso trabalho, se eu fosse padeiro, saberia tudo sobre
padarias - não ajudaram muito. Você acaba esbarrando, primeiro, na
própria gravadora, onde você e eles não tem a mínima noção de como
funciona esse processo todo, tanto quanto a imprensa, público... Então,
todos foram descobrindo junto com você. Dessa forma, fica difícil você
perceber que passou de um plano para outro. Tudo ainda é novidade. O lado
negativo - de ficar enfastiado, de não saber o que vai dizer, os
dramas...-, isso existe. Mas as coisas boas mesmo, como, por exemplo, o
Prince, que deve ter as limusines dele e toda aquela coisa que protege o
artista lá fora, aqui no Brasil não tem. Principalmente porque aqui,
como disse Jobim, fazer sucesso é uma ofensa - artista é vagabundo,
roqueiro é drogado e por aí vai.
Você escreve bem. É
considerado um dos melhores letristas da nova geração. Como você vê
isso?
RR -
Pessoalmente, acho que não escrevo muito bem. Meu forte seria encaixar a
letra da música. "Andrea Dória" e "Acrylic on Canvas"
até se sustentam separadas da música. É uma questão de um jogo de
cintura, sobrevivência. E você fica muito inseguro - eu detestava essas
críticas que diziam que a gente eram um bando de burros, alienados,
colonizados, babacas, otários... No começo, eu tinha de provar que a
gente não era e, na hora de escrever, tomava certos cuidados... Um disco
que me marcou muito foi Construção, do Chico Buarque. Aquela coisa da
primeira letra feita com proparoxítonas - plásticos, tráfego... -, todo
mundo comentou na época. Eu fiz uma anotação mental: se algum dia eu
escrever alguma coisa, será algo assim. Depois, fui aprendendo a deixar
apenas o essencial. Mas as letras do Legião não têm nenhuma palavra
difícil: "Todos os dias quando acordo/Não tenho mais o tempo que
passou..."
E hoje? Parece que
você está com dificuldades de se expressar...
RR - Embora eu
pense nessa situação toda que a gente está vivendo, na verdade não
penso muito. Fico em casa brincando com o bebê e não estou afim de
escrever. (Olhando para o gravador) NÃO TÔ AFIM DE ESCREVER AS LETRAS
DESSE DISCO! Tentei durante quatro meses, mas quando olho a situação
como está... Está tudo tão próximo do pop massificado, as coisas
estão tão engabeladas... Então, aparece aquela menininha cantando:
"Certo ou errado, quem não sai na chuva não aprende a se
molhar...", e eu acho isso fabuloso! É o tipo de coisa que se eu
falasse ou o Cazuza falasse seria isso. Mas absolutamente não tem nada a
ver, porque aquilo é fabricado! E, do jeito que são as coisas no Brasil,
quem vai saber se aquilo é fabricado ou não? Lá fora é só mainstream
- até eles têm o sucesso. Estamos nos anos 90 e para mim é muito, muito
difícil. Vou me sentir o maior falso se continuar falando as coisas que a
gente fala.
Qual a importância
das coisas ficarem mais claras e não tão misturadas?
RR - Acho que é
uma tendência mundial. Uma coisa é quando tinha Monkees e Velvet
Underground. Mas o próprio tempo se encarregou de mostrar que eles não
eram tão diferentes assim. (...)
Mas qual a
importância de haver essa diferença?
RR - Se estivesse
mais claro, eu saberia onde estou pisando, porque eu sou das antigas. Não
vou pegar o violão e fazer uma música babaquinha. Eu preciso acreditar
que o que a gente está fazendo é uma coisa que vale a pena. Também
estou achando que hoje em dia não está bem na hora de falar: está na
hora de fazer. E como já provamos que a gente faz, fica mei assim... Eu
gostaria de ter uma grande inspiração, mas realmente não tenho o que
falar. O que eu posso falar é: "Aí, galera, aprendam", embora
eu tenha sido criticado por isso. Não é uma coisa que me agrada, porque
nunca falei pensando em dizer para as pessoas o que elas tinham de faze;
falava, sim, para mim. Mas eu aprendi o que eu tenho que fazer. E o rock
é uma coisa limitada - Lou Reed, John Lennon, Keith Richards, todos já
disseram isso: depois de um certo momento, têm certas coisas que não se
encaixam bem no rock. As pessoas assimilam, mas entra por um ouvido e sai
pelo outro. Por ser algo que envolve muito consumo, principalmente as
coisas espirituais não vão passar, porque requerem uma certa maturidade.
Isso é muito confuso me minha cabeça. Não tô a fim, por exemplo, de
fazer uma música pedindo para salvar a Amazônia. Eu gostaria de explicar
por que a gente tem que salvar a Amazônia. Para mim, a natureza faz parte
de Deus, faz parte da gente. Cada um, portanto, é dono do seu nariz.
Posso estar no maior mau humor do mundo, mas é só eu olhar um bebezinho,
pronto, é felicidade pura! Agora, como você vai colocar isso em música?
São coisas que não se verbalizam. É o sorrido. E, na hora que você
está pensando no seu trabalho, você quer preservar esse momentos para
que eles sejam âncoras para o seu futuro. (...)
Falem mais de Quatro
Estações.
DADO - A gente
já andou um bom terreno. O disco já tem até um perfil. Tínhamos
aqueles nossos planos de fazer um LP em que todos iriam participar. Isso
é um ponto. Dois: as músicas vão ser mais elaboradas, as harmonias vão
ser mais elaboradas - em vez de ter duas notas, com em "Ainda é
Cedo" e "Soldados", terão cinco. Três: as músicas serão
variadas entre si - a primeira é diferente da segunda, que é diferente
da terceira... Tudo que a gente queria, conseguimos. E quatro: não vamos
usar músico de estúdio, nem teclado, nem fazer fusion, sambinha, essas
coisas - é um disco de rock. A parte musical do disco está pronta.
Entrou muito o que estávamos sentindo, isso passou para a música. Mas
faltam justamente os complementos para fechar o círculo. Eu já vi três
letras e por mim achei ótimas. Cabem direitinho nas músicas.
Quais estão prontas?
RR - "Pais e
Filhos", "Há Tempos" e "1965 (Duas Tribos)"...
Mas eu não tenho tanta certeza... Meu processo criativo mudou. Não sei
explicar. Eu pelo menos, não tenho mais necessidade de, tipo assim,
trepar e gozar... Agora eu aprendi: posso ficar cinco horas, entendeu, no
beijinho, abracinho, pega aqui, pega ali, "Bem vamos tomar um
iogurte?" "Vamos." Aí fica lá com o iogurte... Porque
antigamente era aquela coisa: Blumpt, tem que gozar, ploft, gozou. Naquela
época, eu estava tão tarado para conseguir alguma coisa que, vamos, um,
dois, três... Hoje em dia você está mais aberto para outras coisas.
DADO - Hoje em
dia eu tenho meu cavalo e monto no meu cavalo. É uma coisa boba. Me sinto
bem: é uma coisa totalmente à parte - vou sair para jantar, coisas
pequenas. (...)
Falem sobre o título
do LP Quatro Estações.
RR - Tem essa
coisa de primavera, mesmo, dos ciclos. Gostaria que fosse sobre ciclos, a
perda da inocência, você atingir um certo estágio em que perdeu alguma
coisa e, ou vai para o lado deles, ou retrabalha e reconquista isso.
Porque no nosso caso, por sermos artistas, fica mais fácil que para as
outras pessoas. Mas seria basicamente isso: primavera, verão, chega o
outono e caem todas a folhas. E no inverno fica a árvore toda daquele
jeito. É como se a gente estivesse chegando no inverno . Mas aí vem
vindo a primavera de novo. Quer dizer, você pode escolher ter uma nova
primavera. A maior parte das pessoas que eu conheço fica no inverno, e eu
acho ser esse o maior problemas delas. Acho que o mais importante é a
gente redescobrir as coisas. Com as pessoas mais próximas, sinto que isso
tem vindo através das crianças. É o que está acontecendo com a minha
geração e é sobre isso que eu gostaria de falar. Porque eu realmente
estou me lixando para o que vai acontecer com as baleias, com as árvores,
ou com a Amazônia. Mas e meu filho? Vai ser uma sacanagem da minha parte
se eu não me importar mais com a Floresta Amazônica. Eu, qualquer coisa,
viro Blade Runner. Arrumo uma sala como essa, boto tudo que eu preciso ali
dentro e foda-se. Mas não dá, temos de pensar nas outras pessoas,
principalmente nas que estão vindo agora. É a maior injustiça eles não
terem o mundo que você teve. Do jeito que estão indo as coisas, um
garoto de 2 anos hoje, quando estiver com 8, 9, 10... não vai mais ter.
Não vai ter, gente! Mas aí entra o rock'n'roll. eu também não quero.
Bem, morro de medo só de pensar que meu filho pode achar superbabaca o
que eu faço... (...)
E o projeto do disco
acústico que vocês falaram?
RR - Isso é
antigo. Mas aí o Bonfá comprou uma bateria de dois bumbos...
DADO - E o Renato
falou: "Bom, não vamos fazer um disco acústico (risos)." Mas
esse lance de disco acústico é interessante. Eu tenho ido a shows por
aí e, pô, está tudo tão igual, tão chato. Eu não me sinto emocionado
de estar naquela platéia me assistindo a determinado show. E já foram
vários os que eu assisti. Tudo muito igual, uma linguagem muito
desgastada. Com um disco acústico, talvez você se diferencie, uma outra
sonoridade. Foi uma coisa que bateu porque, enquanto eu fazia o disco, fui
a estes shows e, pô, não tô mais a fim de fazer esse tipo de coisas. As
pessoas até falam que somos diferentes e tal, mas eu não acredito nisso.
Não vejo por onde seja diferente: é uma bateria, guitarra, baixo, vocal.
Para mim, temos a mesma estética.
RR - Olha, eu
quero falar uma coisa. eu sempre quis falar isso. O lance é o seguinte (seríssimo).
São duas coisas. Primeiro: não vou pedir desculpas nem perdão, mas eu
gostaria de explicar que, se eu pudesse voltar no tempo, eu não faria
certas coisas que fiz. No caso de Brasília, eu faria tudo de novo. Da
próxima vez eu ainda levava uma metralhadora giratória e matava um monte
de gente... Claro que não. É brincadeira. No caso de Brasília, não
faríamos o show. Mas uma das coisas mais importantes é a seguinte: uma
vez, num show do Morro da Urca, estávamos tocando "Soldados", e
tem aquela parte: "Somos soldados pedindo esmola...", e um
garotão cismou de tacar umas moedas - porque na época o Ultraje estava
com aquela música "Dinheiro..." e as pessoas jogavam dinheiro.
Eu fiquei tão puto com esse garoto, peguei o microfone, fiquei 15 minutos
falando as coisas mais horríveis que alguém pode dizer para um ser
humano. Eu estava numa fase muito ruim, cheio de problemas, como sempre,
embora isso não justifique. As pessoas até falam que eu estava
superprepotente e depois fui ver que era verdade. Então, se esse rapaz
estiver lendo isso, gostaria de dizer a ele que eu não sou assim, não.
Bem, outro recado é para os jovens (agora olhando para o gravador).
Jovem, por favor, escuta: Lobão, eu, Cazuza, quem quer que seja, a gente
não vai mudar as coisas, coloque isso na tua cabeça. Nós pegamos um
violão, cantamos, mas isso não tem nada haver com o mundo real. Música
é música. Se vocês querem que mude, usem seu título de eleitor. Não
fiquem cobrando posições dos artistas. Façam como nos EUA: você não
gosta das coisas, escreve uma carta para o seu congressista. Se eu
quisesse mudar o mundo, não estaria numa banda, e, sim no Projeto Rondon,
tinha me filiado a algum partido etc. Se querem mudar o mundo, façam
política. Esqueçam essa história de formar banda para se expressar. Se
vocês quiserem falar que o céu é azul, lindo, e que brigaram com a
namorada, tudo bem. Mas se querem resolver o problema do país, em vez de
pegar uma guitarra, entrem para um partido, vão trabalhar, sejam honestos
e mudem as coisas. É o que eu acredito, sabe. Cheguei a esta conclusão.
Essa garotada toda acha que a solução é fazer rock'n'roll. Não é!
(Olhando novamente para o gravador) Rock'n'roll é para a gente conseguir
dinheiro, sexo e diversão!
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