Na edição passada, Renato Russo, Dado Villa-Lobos
e Marcelo Bonfá contaram, em detalhes, toda a história da turma de Brasília
– dos primórdios do Aborto Elétrico e de Bandas como Blitx, XXX, SLU...,
que culminaram nas conhecidas Plebe Rude e Capital Inicial. Lembranças de
quando Renato Russo era DJ e de como a turma foi crescendo até compor um
cenário forte o suficiente para que os primeiros candangos escoassem pelo
Sul do país. Aqui, o trio finaliza esta narrativa e descreve a chegada a
São Paulo e Rio de Janeiro – o encontro com os punks paulistas, o
choque com o grande centro urbano e a opção de morar em solo carioca.
Vamos voltar a
semana de Rock Brasiliense? Como estava a legião nesta época (83)?
DADO – Começamos a
levar mais a sério o lance da banda. Fazíamos as música e as apresentações
com um objetivo.
RR – E também tem
outra: as pessoas que desarvoravam muito, realmente não praticavam tanto.
E nessa época (final de 82, 83 e 84) já tínhamos nossa sala de ensaio
no Brasília Rádio Center – pagávamos aluguel, tínhamos um sistema de
cooperativa e lá ensaiavam três bandas: o XXX, a Legião e a Plebe. Fazíamos
turnos. Então, envolvia uma certa organização – você tinha que
manter a sala limpa, não podia pegar a chave na vez dos outros...
DADO – Desde o dia em
que eu entrei na porra da banda já pintou uma coisa assim.
RR – Pera lá! O status
dele mudou, porque agora ele era do Legião Urbana. Mas o Legião nunca
teve concorrência com ninguém. Tinha uma concorrência acirrada entre a
Plebe e o Capital, não sei bem por qual razão. Acho que é porque o Fê e o André Muller tinham combinado com o André Pretórius de fazer uma
banda – ele ia ser o guitarrista, o Fê baterista e o Muller, quando
chegasse da Inglaterra, seria o baixista. Só que eu entrei no meio e fiz
o Aborto Elétrico, primeira versão, entendeu? Aí o André Muller fez a
banda dele (SLU, Metralhas... bandas que culminaram na Plebe Rude). Acho
que, pelo fato do André e do Fê nunca terem tocado juntos, pintou uma de
“vamos ver!”
DADO – Exatamente. E o
André chegou num desses verões, numa segunda-feira à noite, naquele
show da Livraria Galileu, lembra?
RR – Sim. E a Blitx
ficou sendo conhecida como a primeira banda punk de Brasília. Eles
ficaram putos porque num release escrevi a palavra “invejosos”. Para
toda apresentação eu fazia um xerox explicando a banda, colocava todas
as letras porque, debaixo daquela microfonia toda, ninguém entendia o que
estávamos falando. E neste release coloquei: “Invejosos, os rapazes da
Blitx formaram sua própria banda.” Mas para que eu fiz isso! Os caras
ficaram “pês da vida”. E eles fizeram esta apresentação na livraria
Galileu. Era uma coisa muito louca, porque essa Galileu tinha um barzinho
no andar de cima onde serviam bebidas naturais – guaraná, estas coisas.
Imaginem chamarem os punks para tocar lá. Foi um frisson, um escândalo,
superlegal.
DADO – Eu lembro
do André Müller, sentadão com seu recém-chegado baixo Fender. Ele
pegou e jogou lá de cima por algum motivo. Quer dizer, era o primeiro
Fender que a gente tinha visto na vida! (...)
Falem um pouco mais da
repressão.
DADO - Nunca fui
preso, nunca entrei numa delegacia.
RR - Era tão
louco, nem eles sabiam o que era. Implicavam com todo mundo. Era época da
redemocratização. A Colina, que era nossa base bem no comecinho, era
também a residência dos professores da UNB - gente da esquerda que não
podia falar... E volta e meia vinham as joaninhas - não, nem joaninhas,
era veraneio mesmo. Essa história de "Veraneio Vascaína" é
por causa disso. Eles entravam na universidade, aquelas coisas de bater em
estudante etc. O nome Aborto Elétrico é justamente porque eles
inventaram, em 68, os cassetetes elétricos que davam choque. Numa dessas
batidas, uma menina que estava grávida, nada haver com a história, levou
uma tal daquelas cacetadas e perdeu a criança! Coisa de mau gosto!
Então, Aborto Elétrico era o que representava a música da gente. Agora,
a repressão existia em vários níveis, em todos os lugares. Tinha de se
ter muito cuidado com o que se falava - não podia falar mal do governo,
nada. Nem bzzzzzz. E era só verem um grupo de jovens juntos que vinham
estragar, tipo desmancha prazer. Hoje ainda continua. Cada quatro quadras
tem uma viatura especial, com telefone especial... Você viu o que
aconteceu no show de Brasília, não? Lá é muito bravo mesmo. Mas a
primeira vez que eu fui preso foi o seguinte: já tínhamos a turma punk e
nessa época era meio perigoso, porque os boyzinhos começaram a dar
porrada nos mais fraquinhos da turma. No André Müller e no Pretórius
nuca batiam, porque eles eram enormes. Mas os garotinhos de treze anos,
como o irmão do Zé Renato, usava brinco, pronto: vai lá e toma porrada!
Eu sempre tentava apaziguar os ânimos. Dizia: "Não, gente, vamos
explicar o que é que é. Quem sabe eles entendem." Nesse dia, eu,
com minha roupa punk e toda a turma, falamos: "Vamos para outro
lugar, não vamos ficar aqui." (isso foi em 81). Já estávamos indo
embora quando chegou esta galera, de 15, 16, 17 anos, todos com aquele
uniformezinho igual, sabe, roupa assim de jovem normal, boyzinho... E
chegou o liderzinho, um cara "inteligente": "Por que, se
vocês são brasileiros, ficam rabiscando a camiseta com essas coisas em
inglês?" e eu explicando, tentando convencer: "Pô, vamos ficar
todo mundo amigo. Olha, tenho um loló aqui. Vamos cheirar?" O cara
que estava do lado dele era federal, e: "Mão pra cabeça!" E
foi um teatro só. Ele pegou uma varetinha, com um chicote, e disse:
"Na parede! Abre as pernas!" E os boyzinhos, claro, gritando:
"Punk se fodeu! Punk se fodeu!" Uma coisa estúpida, porque a
primeira coisa que o federal fez, foi jogar a garrafa de loló para os
boyzinhos. E eles ficaram lá, cheirando. Eu fiquei tão puto com isso! É
contra lei e tudo, mas foi aí que eu vi como era realmente a corrupção.
Passei a noite no xadrez... A segunda vez, na festa do Estado, foi mais
humilhante. Fora o que aconteceu na "Roconha". Nesta festa (dos
Estados) estava lá eu - foi quando o John Lennon morreu - com os meus
badges, meu cabelo colorido da Mônica, bêbado, falando para todo mundo:
"Alê! Eu te amo! A vida é bela!" Perguntava o signo - nessa
época eu lia Tarô, fazia mapa astral, um híbrido total. E de repente
veio um cara e me deu um puta soco. Eu não me lembro direito, porque eu
estava bêbado. Mas fui parar lá no porão da prisão. Mandaram eu tirar
a roupa... horrível.
Você falou em "Roconha"?
RR - Roconha era o
seguinte. Tinha uma galera com um sítio - acho que era filho de um
médico. sei lá. Então fizeram três Roconhas - a primeira parece que
foi um escândalo, o máximo, mas ninguém ficou sabendo. Eles abriam a
fazenda, o pessoal chegava de carro e ficava ouvindo som: você arrumava
uma menina, ficava na boa com ela, fumava unzinho... A segunda foi mais
divulgada. Fizeram um convite com um mapinha numa sede, dizendo:
"traga o seu". Bem, aí nós juntamos na casa do Fê, todo mundo
gala, com correntes e tudo, fomos todos para a Roconha. Mas nem entramos!
Já tinha policial para tudo quanto é parte - parecia até cena do Kojak,
com cachorro e tudo. Já entramos com a mão na cabeça, uns cinqüenta
jovens sentados naquele chão de verão que ficava uma poeira só. O que
teve de vestido branco que se acabaou nesse dia!
DADO - E eles:
"Quem é filho de militar, para cá. Os menores para lá."
RR - E eles nos
dividindo e a gente: "Não! Temos de ficar juntos." Foi uma
coisa psicologicamente muito ruim. Mas quem sofreu mesmo foram menores.
Abusaram mesmo! Os pais iam lá pegar as garotas e eles falavam: "Sua
filha é uma piranha, andando com maconheiros!" Aquelas menininhas de
13 anos chorando, chorando, chorando. Foi horrível! Aí fizemos
"Veraneio Vascaína".
Tem uma coisa curiosa!
Você falou várias vezes no nome do Sid Vicious. Eu sinto que ele foi
marco de alguma coisa...
RR - Quando o Sid
morreu, eu chorei, chorei de raiva. Foi o primeiro porre da minha vida -
tomei uma garrafa de vinho Chapinha. Ele era meu ídolo! Ídolo! eu tinha
um crocodilozinho empalhado que era o Sid - bem, qualquer coisa para
horrorizar meus pais, né! - e também um mural imenso no meu quarto, onde
eu rabiscava com caneta pilot: "I Wanna Be a Junkie". O meu
sonho era ser junkie. Então eu lia Christiane F. e ficava: "Ahahahah!"
Tirando isso, eu lia as entrvistas dos caras e eles só falavam coisas que
tinham haver. Tem uma coisa que surpreende. Você pode pensar: "Sid
Vicious era um idiota!" Não, não era. Ele que acreditou naquele
filme dele, mas só falava coisas legais. Uma música que eu gostava muito
era "Bodies", contra o aborto. Nunca imaginei uma postura assim
da parte deles. (...) Independente do Punk, eu lia muito. Já estava lendo
Thomas Mann - coisas de jovens, que começa com Herman Hesse... Lia muito
Fernando Pessoa. Então deixou de ser aquela coisa: "Minha namorada
brigou comigo, eu não quero, não quero, vou cheirar cola etc."
Passou a ser uma outra coisa. Aí era Joy, muito Joy Division. Closer,
como a gente ouvia este disco! Não sei como não ficávamos deprimidos.
Era entra na Variant do Fê, tocar aquele negócio e vamos embora! Foi
quando começamos a mudar a roupa, a andar como andamos agora... Mas eu
nunca fui junkie. Era só "I Wanna Be a Junkie" mesmo. O que eu
fazia na época era tomar um porre. Na verdade, tudo acontecia porque eu
me identificava com todos esse párias - Brian Jones, Jimi Hendrix, Janis
Joplin, Jim Morrison... os loucos em geral. Hoje em dia, eu sei que isso
não é legal! Parece que é a coisa mais linda do mundo você morrer de
uma overdose de heroína, mas não é. Não é mesmo! Em Brasília rolou
aquela coisa bem de Christiane F. Eu fiquei até muito chateado, pois
depois algumas pessoa escreveram o review do show da Legião e falaram que
"eu fazia posturas nazistas, falava de drogas como se soubéssemos o
que era aquilo". Eu não pude falar na época, mas quase me deu
vontade de dizer: "Olha, a gente não só sabe como é, como a gente
viveu isso também." (...)
DADO - Eu era o
presidente do Clube da Criança Junkie.
RR - Mas, também,
era qualquer coisa para se divertir, se alguém tivesse uma idéia, tipo,
vamos dar uma passeio de bicicleta, todo mundo ia. Era tão louco! Passeio
de bicicleta ou baseado. Não tinha muito parâmetro. Era uma coisa
naturalmente muito irresponsável!
Nessa época de
Brasília, vocês tinha contato com o que estava acontecendo em São
Paulo, por exemplo?
RR - Não! A gente
achava que nós éramos os únicos Punks do Brasil!
E como vocês ficaram
sabendo? Alguém foi pra lá?
DADO - Eu. Eu vi um
cara com uma camiseta dos Ramones. (...) Na verdade, quando eu ia a São
Paulo de fárias, ficava nos Jardins, na casa da minha prima milionária.
Quando fomos no Napalm (casa noturna paulista, uma das primeiras a agregar
Punks e New Wavers), em 83, é que sentimos! Aí foi foda!
RR - Porque, até
então, era só o lance musical. O Punk Rock Movie - que mostra o Clash no
começo, Siouxsie - conheci só no Rose Bombom (outra casa noturna de São
Paulo). Fiquei horrorizado! Se eu soubesse como era na época em que a
gente estava em Brasília... Não tínhamos vídeos, nada. Então,
assistir a Siouxsie conversando com Cat Woman com aquela garrafa de água
mineral cheia de bolinhas na mão e engolindo tudo...! O Sid Vicious se
cortando com a gilete, sabe, aquilo era muito, muito negativo.
Paradoxalmente, a gente tinha uma coisa toda do Punk mas era muito
positivo - pegávamos sol de manhã, íamos ao rio, uma coisa
supernatural. Quando fui a São Paulo, pensei: "Opa! Isso é
verdade?" Quando tocamos no Napalm, meu Deus! Que paranóia! Se eu
soubesse, tenho certeza de que não tinha batido tão forte. Imagine eu,
que tenho formação católica... (...)
Mas contem mais sobre a
chegada a São Paulo.
RR - Eu era o
empresário da Banda e não sei porque cargas d'água viemos para o Rio e
aqui ficamos sabendo casas noturnas em São Paulo. Eu entrei em contato
com o pessoal de lá - lembro que ficava horas e horas falando com a
Fernanda (empresária da Legião Urbana durante um tempo e atual mulher de
Dado), e ele já conhecia muitas bandas. Porque, mesmo entre as pessoas
que sabiam de certas bandas, havia algumas - como Young Maible Giants,
minha favorita - que pouca gente conhecia. E pintou uma superempatia, pois
Fernanda tinha morado em Nova York... Bem, e assim armamos uma
apresentação em São Paulo.
DADO - No dia do
show, eu lembro, estava havendo uma polêmica, porque o dono da casa, o
Ricardo Lobo, em vez de pagar cachê para as bandas, fornecia um vídeo.
Só que, ainda por cima, você tinha de dar uma fita para ele gravar. A
gente passando o som e estavam lá as Mercenárias, o Thomas Pappon, sei
lá, um monte de gente discutindo com ele sobre esse esquema. Pensamos:
"Não vamos deixar filmar também. Vamos tomar partido da nossa
classe." Subimos no palco e Ricardo pegou o vídeo e "pow!"
Aí desceu o Bonfá da bateria, dizendo para ele parar de filmar. Hoje em
dia, é uma pena, porque somas a única banda que não tem vídeo daquela
porra!
RR - Mas temos
alguns do Circo Voador.
DADO - Foi nesse
momento que fizemos os primeiros contatos com os Punks de verdade. Mas
mesmo que não tivesse Punks, teria nos chocado. Lembro de uma tarde
quando fomos tomar coca-cola no bar ao lado do Napalm antes do show. Na
hora em que entrei, viraram uns vinte caras e "blaw!" (imita uma
cara de mal-encarado) Aí estavam quem? Marcinha, Clemente... Fiz amizade
com o Clemente (Inocentes). Olhei para ele e pensei: "Esse é o
cara!" Aí perguntei: "Tá a fim de uns convites?"
RR - Então eles
perceberam que a gente sabia de alguma coisa, porque usávamos as
camisetas, as roupas e tudo. Mas, comparando, éramos filhinhos de papai
em Brasília.
DADO - Tanto que no
show o pessoal falava: "Mais forte, filho de general!"
RR - Mas acho que as
pessoas gostavam. A gente sempre teve uma coisa meio pop. O Aborto era
meio MC5 e o Legião, mais Jam. Mas acho que eles gostavam, porque até
hoje temos amigo lá. Se fossemos uma banda ruim mesmo, não deixariam a
gente tocar no circuito todo que fizemos: Woodstock, Paradise etc. Era
bacana, porque tinha uma galera que sempre ia aonde a gente tocava. (...)
Detalhem mais essa
chegada em São Paulo. O que chocou, além do Napalm?
RR - A gente foi de
ônibus e não sabia... Porque eu nunca percebi nossas letras como uma
coisa urbana. Era, mas eu via mais como uma coisa emotiva.
Então porque o nome
Legião Urbana?
RR - Por causa da
turma e porque éramos da cidade. Eu sempre inventava nomes para a turma.
Era para ser Organização do Desespero, O.D. Mas aí as pessoas falaram:
"Pô, Renato! Que nada! A gente não é dessa turma!" Depois,
foi Sociedade Pré-Crambriana. Não deu certo e a organização virou
desorganização. Sempre gostei de "tchurmas". Desde pequeno eu
era ligado em filmes de "tchurmas" e, aí, armei a turma. Eu era
muito pentelho - juntava as pessoas, tipo "o que vamos fazer hoje,
vamos mudar o mundo", e não-sei-o-quê. Eu era uma espécie de
catalisador. Várias pessoas eram, mais eu insistia muito nisso. E eu
nunca tinha percebido o lance de cidade mesmo, desemprego... Isso me
espantava muito. A gente morava bem e em São Paulo fomos para lá no
bas-fond mesmo, na sujeira. A Fernanda morava perto da Praça da
República e era aquela coisa: você abria porta da geladeira do
apartamento de um cara e tinha lá só um litro de vodka. Coisa de junkie
(risos)! E eu: "Mamãe! Eu quero a minha mãe!" (...) Era fogo,
porque, gozado, a gente estava acostumado a acordar de manhã, geladeira
cheia e, em São Paulo, íamos tomar um chocolate no boteco e falávamos:
"Moço, põe mais um pouquinho de Nescau!" E ele: "Não,
tem de pagar mais tantos cruzeiros." E a gente: "Por
favor!" Vivíamos assim, de iogurte, on the road mesmo, dormindo no
chão, superemocionante.
DADO - Edgard (Scandurra,
Ira!) emprestava os pratos - eu andava São Paulo inteira atrás de
instrumentos.
RR - Poxa, como o
pessoal ajudou a gente! Principalmente em São Paulo. Ajudaram com
equipamento, com lugar para ficar. Hoje deve estar totalmente diferente.
Às vezes alguém me liga e pergunta: "Renato, tô com uma banda e
tudo". Eu fico pensando: "Poxa, que pena que não é com
antigamente!" Tinha muita briga - o pessoal de São Paulo brigava
muito entre si. Tinha a história das mulheres dos Titãs, que brigavam
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não sei com quem etc. Mas em relação as bandas de fora, o pessoal era
muito amigo de todo mundo. Claro, umas pessoas eram mais amigas que as
outras. Então, o pessoal do Azul 29 ajudou a gente pra caramba. Até as
coisas menores, como pagar um milk shake ou dar uma carona para tal lugar.
Ou explicar um pouco como funciona a cidade. Eu lembro das pessoas
falando: "Olha, não liga não, São Paulo é assim mesmo!" e a
gente andando de metrô - parecia que estávamos na Alemanha. porque em
Brasília morávamos com nossos pais. Éramos rebeldes e tal, mas domingo,
três da manhã, voltávamos para casa. Em São Paulo, foi a primeira vez
que tivemos contato com os jovens da nossa idade que moravam sozinho, que
tinha um emprego, que tinham sua própria casa, sua própria vida, e
ninguém mandava neles. Isso foi um lance muito importante para a gente.
Ficávamos até sem graça de fazermos certas coisas - uma coisa é você
se rebelar em Brasília contra seus pais e outra é você em São Paulo.
Vamos nos rebelar contra o quê? Aí você olhava para aquela turma e
pensava: "Poxa, somos os mascotes aqui. Eles são mais velhos, sabem
de tudo." O que sempre me interessou nas pessoas é se elas faziam
alguma coisa. (...) Em Brasília, embora eu trabalhasse desde os 17 anos,
a maioria do pessoal não fazia nada. Era o carro que o papai deu para ir
ao clube. Eu conversava com eles mais não tinha aquela afinidade. Em São
Paulo , pintou esse pessoal todo e eu me identifiquei com isso. Meu sonho
era ter um apartamento como aqueles, juntar alguns amigos e ter toda a
liberdade. Porque Brasília, nas questões de sexo, por exemplo, eu era
muito imaturo, ainda. Uma coisa que me impressionava em São Paulo é que
todo mundo já era casado. Todo mundo transava livremente. Em Brasília,
as pessoas namoravam e tudo mais, mas era meio escondido - sexo era uma
coisa que rolava, mas não muito. Em São Paulo tinha essa maturidade de
comportamento. Eu já tinha transado antes de chegar lá, mas a primeira
vez que eu me senti como homem - tipo, agora sim, estou transando - foi em
São Paulo. Isso foi uma coisa muito importante para mim. (...)
E no Rio de Janeiro?
Como foi vir morar aqui, já que vocês tinham gostado tanto de São
Paulo?
RR - Os Paralamas
estavam aqui e quando viemos nossa base era o apartamento do Bi. O Rio
parecia mais seguro, mais saudável. São Paulo dava um certo medo.
BONFÁ - Mas
estávamos loucos para voltar para casa. A gente gravou o disco rapidinho,
voltou e depois de cinco meses é que viemos morar aqui. (...)
RR - A gente tocava
muito no começo. Muito mesmo. Tinha uma demo que já tocava na
Fluminense. Até que entrou "Será" na rádio, depois da
gravação do disco. Nossas primeiras demos forma feitas pelo pessoal do
Artmanha, que deu a maior força em lá Brasília. Aqui produzimos uma com
três músicas com o Marcelo Sussekind. Esta é uma parte bonita da
história, porque hoje em dia o pessoal da Artmanha está montando um
estúdio em Brasília com uma máquina de oito ou dezesseis canais, que
era o nosso plano. Porque a gente queria sair, fazer sucesso, ganhar uma
bolada de dinheiro e voltar para lá - ter nossas mansões, nosso
superestúdio...
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