Quando
tudo começou em Brasília,
Renato, Dado e Bonfá mal poderiam imaginar que eles iriam se tornar o Legião
Urbana, uma das bandas mais populares do Brasil.Passados treze anos, às vésperas
de lançar Quatro Estações , o quarto LP, eles relembram as aventuras e
desventuras da época em que Renato tinha vergonha de cantar, Dado rasgava as
calças e Bonfá se arrepiava com os primeiros shows punks.
BONFÁ
–
Bem, o rock começou pra mim quando eu era ainda garoto – ouvia Rita Pavone no
berço. Aí meus pais me deram uns discos com os sucessos da época. Eu tinha um
gravadorzinho e minha primeira ligação foi com a percussão. Meu pai já tinha
tocado aro de caixa em boate e me ajudou a comprar uma bateria. Meu primeiro
disco de rock foi mesmo o do Who (The Story of the Who, coletânia de
76). Em Brasília, bem, não lembro. Ah, sim! Um a vez eu estava num festival lá
num colégio onde tocaram Blitx e Aborto Elétrico (abril, 1980)... Bateu uma
coisa muito forte! Fiquei todo arreiado!
RR
– (dando
uma de entrevistador) Por que você acha que se arrepiava?
BONFÁ
– Pó,
cara, eu me amarrava.. Não sei se porque eu gostava do som. Era visceral,
demais! Aí juntamos eu e alguns amigos que estavam na platéia e: “Vamos
forma uma banda?” (com Victor e André Killer, irmão do Fé, do Capital
Inicial. A banda não tinha nome).
RR
– Vocês não achavam
barulhento demais?
BONFÁ
– Era
mais uma coisa de distúrbio adolescente, que você canaliza para a música e
assim se identifica. Ou seja, rock, 4x4, música que você ouve no carro.
DADO
–
Sei lá, chega a adolescência e você tem de tomar um partido – senão
você vai ouvir música clássica e se tornar um cara bom. É difícil falar
sobre isso. Acontece uma virada na tua vida na adolescência – são as drogas,
a música e as meninas.
RR
– É
mais uma questão de inconformismo. Mas isso é gozado, porque eu lembro que na
época da gente as pessoas não ouviam rock... (...)
Você
chegou a fazer um programa de rádio, em 83, em Brasília, não? Você tinha
oportunidade de colocar...
RR
– (cortando)
Nunca !!! Eles me despediram. Era hipertripper careta, um emprego mesmo.
Foi assim: tinha um programa de jazz e eu fiquei superanimado porque fui chamado
para faze este programa. Mesmo o jazz não sendo meu tipo de música, eu ia
poder trabalhar, escrever textos... Duas semanas depois, o cara veio reclamar
comigo: “Olha, Renato, você não entendeu muito bem”. Não era um programa
de jazz e sim muzak. Tinha de tocar Ella Fitzgerald, “Summertime” – para o
pessoal lá dos ministérios, que chega na hora do almoço em casa, liga o rádio
e ouve duas horas de jazz-muzak .
Era exatamente o que tinha de fazer, aquela coisa horrível! Tudo bem, eu lá
dando a biografia do Chet Baker, falando que ele era viciado, e o cara no meu pé:
“Não, Renato menos falatório e mais música”. Bem, resolveram me dar outra
chance e fizeram um programa dos Beatles. E eu: “Oba! Ta pra mim!” E era um
tal de tocar “Revolution” e tudo. E novamente o cara veio falar comigo:
“Renato, você não entendeu. É pra tocar ‘Yesterday’, ‘Michelle’ ...
essas coisas. Rock pauleira, não! ” O primeiro bloco que eu fiz era sobre os
filmes dos Beatles. Então começava com “Hard Day’s Night”, depois
“Help” ... mas eles não deixaram. E aí eu fui despedido. Acho até que nem
foi por causa disso. É que eu era meio rebelde, ficava dando muitas sugestões,
mudava as listas – eu ia até a discoteca e trocava tudo!
DADO
–
Brasília é um universo muito pequeno – você acaba conhecendo todo mundo do
seu meio, todos os jovens. Havia duas facções: a da MPB – Milton Nascimento,
Djavan, Caetano...- e essa outra, a depravada.
RR
–
Entre as pessoa que ouviam rock – gozado, porque são as grandes amizades que
eu tenho até hoje - , o elo foi a música. Tenho um grande amigo em Brasília.
Outro dia estávamos conversando e eu perguntei: “Como a gente ficou amigo?”
E ele me contou que tinha voltado de Paris com uns discos e eu disse: “Oh,
discos novos na cidade!”. Importados
e tal. Aí eu fui lá catar alguns e ficamos amigos. Isso antes mesmo do punk,
quando já tinha um pessoal que gostava de rock: Mas era uma, duas pessoas.
Naquela
época, eu nunca tinha ouvido Velvet Underground!
DADO
–
Era sempre alguém que vinha de fora.. Brasília tem sempre alguém chegando e
indo embora ...
RR
–
Tanto por ser filho de diplomata como por causa dos pessoal das embaixadas...
Agora, começou mesmo, porque em Brasília tinha os jornaizinhos – Melody
Maker, New Music Express ... – e eu sempre lia. Ganhava minha semana de 50
cruzeiros, cada jornal custava 5 e eu comprava dez – lia, lia e lia ... Ficava
procurando entrevista com Led Zeppelin – se bem que na época eu não estava
ouvindo Led Zeppein, e sim Joni Mitchell, Bob Dylan ...
Isso
foi quando?
RR
– De
76 a 78. Eu ouvia muito rock progressivo. Aí o progressivo acabou. É aquela
velha história – já falei isso tantas vezes! O Rick Wakeman saiu do Yes, o
Robert Fripp acabou com o King Crimson, o Peter Gabriel saiu do Genesis ... Então
o Emerson, Lake and Palmer lançou aquele Works, que era horrível – não
era tão horrível assim - ... e foi acabando e não apareceu nada. Comecei a
ouvir anos 60 – Beach Boys, Jefferson Airplane, Bob Dylan – e descobri uma
porção de coisas que não conhecia. Foi quando comecei a ouvir Leonard Cohen,
coisas assim. Aí os jornais começaram a falar mal de toda essa gente,
chamando-os de hippies velhos e apontando os Pistols. Até hoje eu tenho um Melody
Maker com um texto sobre uma apresentação dos Pistols, onde um cara levou
uma navalhada no olho etc. Isso começou a me interessar, porque eu ficava
curioso: “Quem são? falam tão bem! Vamos ver o que que é?”. Eu tinha um
professor de Inglês, chamado Ian, que viajava muito na época. Ele foi para a
Inglaterra e eu perguntei: “O que está acontecendo lá?” E ele: “Está
acontecendo uma coisa com Sex Pistols?!?!?!” Mas ele falou de um jeito que eu
pensei: “Nossa que coisa horrível!” E eu continuei desenhando minhas
guitarrinhas dos Beach Boys... Um tempo depois, lançaram no Brasil a coletânia
Pop apresenta O Punk Rock, Television (1º LP, Marquee Moon),
Clash (The Clash) e Eddie and The Hot Rods. Eu já sabias sobre as bandas
de cor, mais ainda não tinha conseguido os discos. Um pouco antes disso, outro
professor de Inglês – ele até se matou em São Paulo...(recordando) quando a
gente fica velho é tão horrível! Tem gente que se matou... Bem, ele foi para
lá e eu fiz uma lista de discos para ele trazer. Ele até contou uma história
gozada. Foi uma tia dele quem tinha ido comprar os discos. Ela era uma dessas
velhinhas riquíssimas e ficou horrorizada ao entrar na loja e ter de pedir
discos com aqueles nomes (risos) ... Ele trouxe um livro cor-de-rosa que falava
dos primeiros punks, com fotos e tudo... Era dali que eu tirava meus
modelos – usava um grampo aqui na boca, outro aqui assim (aponta uma face do
rosto). Eu furava de verdade! As pessoas ficavam horrorizadas! E, também, os
primeiros singles do Sham 69, produzidos pelo John Cale. Dois minutos de música
e eu ouvia o dia inteiro! Bem, aí tinha o Fé (atual baterista do Capital
Inicial), que estudava na cultura inglesa e também tinha voltado da
Inglaterra.Ele era meio – hippie – tinha barba, cabelo comprido, mas
usava calças rasgadas. Uma coisa híbrida – hippie com punk. E
Sex Pistols daqui, Sex Pistols dali ... até que pintou o dia em que eu estava
na Taberna e veio descendo um punk com a namorada dele, um Sid Vicious
loiro – era o Andre Pretorius. Eu cheguei nele e a primeira coisa que eu falei
foi: “Você gosta do Sex Pistols?” E ele: “Sex Pistols! Yeah! Jóia!”.E
começamos a trocar informações. Eu tinha acabado de receber o segundo LP do
Clash (Give’En Enough Rope) e ele o primeiro compacto do PIL. Isso já
devia ser 78. Então, bem, “vamos formar uma banda?” “Vamos!” Aí
formamos o Aborto Elétrico – ele tocava guitarra e eu baixo. Porque nessa época
tinha aquela coisa de “façam sua própria banda”. E eu fiquei enchendo meu
pai para ele comprar um instrumento. Foi meio difícil, mas eu estava
trabalhando e juntei uma grana, ele me ajudou e comprei um baixo.
Mas essa idéia já era antiga na sua
cabeça, não é?E pra vocês, Bonfá e Dado?
DADO
– Não,
de jeito nenhum. Não tinha nada a ver. O Renato sim. Ele tinha idealizado até
uma editora, que ele criou há dez anos para seus discos e sua banda.
RR
– É,
é antigo. Mas, primeiro, além de não encontrar músicos, os que eu encontrava
não sabiam o que era rock ou não gostavam. Eu mesmo não sabia tocar. Fiquei
um ano para tirar “Blackbird” dos Beatles. Era muito, muito difícil. Até
que apareceram os Pistols, fazendo três acordes e falando: “Olha, vocês
podem pegar um instrumento e fazer três acordes”. E era isso que a gente
fazia. Começamos, eu e o Andre Pretorius, antes até do Fé entrar, por que a
bateria não tinha chegado da Inglaterra. Ficávamos tocando a tarde inteira a
mesma música – a dos Slaughter and the Dogs. Imagine uma banda chamada Matança
e seus cachorros. Era o máximo! A gente adorava! Tinha esses, os Saints, Damned,
Buzzcocks, mas o que a gente mais gostava, o mais fácil de tocar, era Ramones.
Uma tarde inteira tocando “Now I Wanna Sniff Some Glue”!Parava, voltava.
“Não é assim, pára, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...não,
pára, volta!”. Fazíamos apenas um lanche e voltávamos. Por que naquela época
não tinha muita droga. A gente só pensava nisso – música e banda. E a
turminha começou a crescer. Íamos para a Colina ,apenas umas três ou quatro
pessoas que gostavam de rock: o Fé, o Loro (Também do capital Inicial,
guitarra) e o Geraldo, do Escola de Escândalo, que era irmão do Loro. E ficávamos
o tempo todo conversando sobre a vida, todos com 16/17 anos, falando dos pais,
da namorada, tentando conseguir alguma coisa pra fazer. Colocávamos o carro
dentro da quadra, abríamos as portas e ficávamos ouvindo, ouvindo direto! E
grande parte deste materialera constituído das nelhores coisas. O André Muller
(Plebe Rude) mandava as fitas da Inglaterra, gravava os programas de John Peel e
por essas e outras ouvíamos coisas como Raincoats, Slits ... Nem sei mais onde
foram parar. Por exemplo: quem tinha o primeiro single do Gang of Fourfazia as cópias,
distribuía e assim foi indo, foi indo, foi indo até que começaram a entrar as
meninas para a turma. Foi quando o Sid Vicious morreu, mais ou menos na mesma época
em que apareceu o B-52’s. 79, acho. As datas eu não sei, mas foi logo que
apareceu o Police, Two Tones, Specials, Selecter, Madness... As meninas vieram
porque essa era uma música que elas poderiam dançar. Até então era só Sham
69, aquelas coisas. Eu, por exemplo, dançava batendo a cabeça na parede,
pulava, rolava pelo chão...(risos)
DADO
–
Invadíamos as festinhas, animávamos de verdade. Então, se estava tocando um
John Travolta em Francês, tirávamos e colocávamos nossas fitas. Para não
assuntar, começava com Talking Heads...(...)
Quer
dizer, tirando vocês, essa pequena turma, tinha alguma outra que chegou
junto porque era radical, ou porque já estava ouvindo essas bandas? Houve
alguma identificação com vocês?
RR
– Não,
tinham alguns amigos que sacavam porque gostavam de rock. Lembram do Puzi, do
Rato? (perguntando ao Dado e Bonfá). Eles eram de outro lugar e, de repente, não
se juntaram. Mas eu tinha alguns amigos que não eram punks por natureza e não
sabiam de nada.(...) Em 79, conhecemos a Valérie – uma francesa –
e o Luiz Eduardo numa festa para o Gilberto Gil, onde ele mesmo não
apareceu. Estávamos lá, toda a turma, e eles dançando tudo quanto é música,
até as do Gil. De repente toca “Rock Lobster”, do B-52’s. Pra quê!
Fizemos amizade na hora! Quando fomos vê-los de perto, ficamos alucinados com
seus badges (buttons), que eram de verdade. Não havia isso no Brasil,
ainda. Fazíamos os nossos com durepox, recortando as figuras das revistas, dos
jornaizinhos. Agora tirando o rock, tinha diversas coisas que faziam com que a
gente ficasse junto. Éramos um pouco rebeldes, inconformistas e o rock nos
ligava. Mas acredito que muitas daquelas pessoas iriam ser amigas de qualquer
forma, por afinidade, por tudo. Acontece que o lance das bandas sedimentou. E é
gozado, porque era uma turma tão esdrúxula! Cada pessoa escolhia uma banda
como sua favorita e usava o seu badge. No começo, andava todo mundo punk
mesmo, rasgado. A Cris, por exemplo, levava o cachorro dela para passear na
coleira e ela portando uma coleira, também. Isso em 79era um escândalo! A
gente fazia essas coisas terríveis! Uma vez eu cismei de pintar meu cabelo –
fiquei parecido o anjinho da Mônica. E tinha as prisões. Fui preso umas duas
vezes, porque o pessoal achava que estávamos com drogas... Pixávamos a cidade
inteira – letras de músicas, Sex Pistols – apesar de na época não ter
pixação, grafite. Só no Rio, como o Celacanto Provoca Maremoto.
BONFÁ
– Pixávamos o A, em forma de Anarquia, e o E, dentro, de Aborto Elétrico.
RR
– Ficávamos ima tarde inteira procurando o que fazer.
DADO
–
Você saía da sua quadra, andava dois quilômetros, chegava num lugar e os
caras estavam lá, com bateria, amplificador, baixo, guitarra, em pleno verão
de Brasília. Porque Brasília no verão esvazia, não sobra ninguém. Só fica
mesmo quem não pode sair. E naquele ano eu tinha repetido no colégio e tinha
sido obrigado a ficar. Aí, eu e meus amigos fomos para uma lanchonete, a Foods,
onde o dono emprestava uma tomada e dava sanduíche de graça para quem tocava.
Eu fiquei ali do lado, sentado. E o Aborto começou a tocar. Não lembro se eu
percebia alguma coisa, mas era uma barulheira infernal. Estava terminando o show
– eu lembro direitinho – e o Gutje (Plebe Rude) pegou o instrumento para
tocar Romeu e Julieta, que virou: “Romeu e Julieta/ que coisa mais careta/ Vai
tomar no c*...”, alguma coisa assim. (...) Mas daí para você começar a
pensar que aquilo era uma banda, que poderia virar isso ou sei lá o quê...
Jamais passava pela sua cabeça. Você ainda era estudante...
RR
– Tem o fato de ser jovem. Toda cidade falava. Eu lembro que a primeira
apresentação do Aborto Elétrico foi num pequeno barzinho no Gilberto Salomão
(80), onde só se vendia cana – chamava, inclusive, Só Cana. Tinha certas
pessoas ligadas nos anos 70 – até mesmo eles – que deram muita força. E
agente era muito entusiasmado. Se encontrássemos alguém para contar a história
dos Pistols e o que esse Sid Vicious fazia, como era a história toda... Ou, nós
mesmos, falando de como era bacana a gente tentar fazer rock’n’roll,
reclamar da vida e tudo. Enfim, se encontrássemos alguém que nos ouvisse,
despejávamos tudo. E invariavelmente pintava uma pessoa para dar uma força.
(...) Fomos, levamos umas coisas, o Fé com caxumba, febre de 40 graus e, quando
terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: “Ehhhhhh! De
novo!!” Por que brasileiro gosta muito de zona. Então, dá-lhe zona. Eles não
entenderam nada: todo mundo parado, assim (faz uma expressão de perplexidade).
Aí tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que soube, a cidade inteira falou
disso depois. Porque, primeiro, ninguém tinha ouvido falar de grupo de música
chegar e tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. E o guitarrista loiro
sangrando a guitarra. O Aborto Elétrico era assim – pham!!!. E não era rápido
– era lento, tipo Pistols. Eu estava ouvindo uma fita outro dia e percebi como
era lento: tipo MC5 e stooges. Aí, o que aconteceu? A cidade começou a falar.
Nos colégios de classe média – Objetivo, Elefante Branco, Marista - , o
comentário era: “Você viu, aqueles caras, são maconheiros, blá, blá, blá...”
(...)
DADO
– No colégio era legal ser amigo dos punks. Então, se alguém te via
naquele show de final de semana, um playboy, por exemplo, logo dizia: “Ah!
Ah!”
RR
– Eu imagino o que deve ter acontecidono primeiro dia em que o Dado foi ao colégio,
portando corajosamente um alfinete! Um alfinete só! Depois rasgou a calça um
pouquinho, só um pouquinho...
DADO
– Minha mãe usava minhas camisetas para pano de chão. E eu: “Cadê minha
camisa dos Pistols?” E ela: “Aquele trapo?”
RR
– Eu
pegava de volta: limpava e vestia de novo. Por que a gente não usava roupa suja
– era toda rasgada, mais limpinha.
<
\n';
document.write(barra);
}
}
changePage();
span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt">BONFÁ
– O
que bateu musicalmente para mim – eu lembro direitinho – é que desde
garoto, com dez anos, gostava muito de Bill Halley, Little Richard e Beach Boys.
Em 80, o irmão do Dinho tinha conseguido o álbum duplo ao vivo dos Ramones (It’s
Alive,79). Quando ele botou na vitrola e eu ouvi aquilo, nossa! Era uma
coisa simples e que bateu na hora. Eles tocavam “Do You Wanna Dance”, que eu
conhecia só com Johnny Rivers, e provocou uma mudança musical muito grande.
Tenho a fita até hoje!
RR
– É
gozado, porque as outras coisas assustavam: Damned assustava, Clash assustava,
Buzzcooks assustava – tocava e todo mundo ia dançar. Mas Ramones foi o elo de
ligação – todos gostavam.
Mas
a turma virou mesmo quando Sid Vicious morreu. No começo, eram só cinco ou
seis amigos. (...) As meninas tinham um estilo meio Go-Go’s. E o que a gente
fazia? Nos encontrávamos toda noite, eu saía da universidade – estudava
comunicações (80/81)...
DADO
– eu fazia 2º grau.
RR
– Aí juntávamos na Colina, colocávamos os carros, comprávamos um garrafão
de vinho – foi quando começamos a beber. Antes, uma dosinha de caipirinha e
ficava doidão. E ficávamos lá, a noite inteira, assim: “Como o mundo é
belo! Gente , eu adoro vocês!”
DADO
– Tinha uma sexta-feira que era de lei – Talking Heads, 77, a noite inteira.
De lei mesmo, na época do Dado e o Reino Animal.
Então
você já tinha banda? Por que você falou da lanchonete, que ficava lá
olhando, mas não fez a ponte até aí.
RR
– O lance era o seguinte: cada pessoa na turma tinha que fazer alguma coisa.
Era como uma lei não escrita. Tinha o pessoal das bandas, apareceram os que
faziam fotografias, os que ajudavam a fazer camisetas, os que faziam os
instrumentos, os dos posters, os que colavam os posters, os que iam na Censura
Federal para liberar as apresentações. Quando não faziam nada, perguntávamos:
“Qual é a sua função na turma?” “Eu tenho carro.” Então, era a
pessoa que tinha carro. Tinha os caras que faziam loló... Mesmo que você fosse
da turma e não fizesse nada, imediatamente você queria fazer alguma coisa. E
muitas bandas surgiram assim. (...) Teve a fase da benzina, mas descartamos
rapidinho... Éramos meio metido a bestas, intelectualmente. Aproveitávamos
muito o que a cidade tinha – era uma garotada com muita informação, os pais
tinham livros em casa, todo mundo classe média alta e punksnos fins de
semanas. Mas, como todos os punks, éramos pacíficos. A violência só
apareceu com os skinheads. (...) Uma coisa que precisávamos era de
pessoas que nos dissessem coisas assim: “Olha, o que fazem, é isso, vão em
frente e façam etc.” Por que a gente só levava na cabeça. Todo mundo
reclamava do que fazíamos. E, é claro, é bom ser rebelde, contra tudo e etc.
Mas é legal quando pinta uma pessoa que te dá uma força. E era só dar alguma
coisa para fazermos e a gente fazia. Isso foi uma boa experiência, porque, mais
tarde, quando precisamos, soubemos como liberar um show da censura, como tirar
alvará. (...)
Como foi a Semana de Rock Brasiliense?
A Legião já existia, não é?
DADO
– O guitarrista tinha saído há um mês e eu entrei.
RR
– Aí aprendeu a tocar...
DADO
–
Eram as quatro grandes bandas: Plebe Rude, XXX, Capital Inicial e Legião.
RR
– O Aborto já tinha acabado, há muito, muito tempo atrás. Acabou
virtualmente quando o Andre Pretorius foi para a África do Sul servir o exército
e matar negros. Eu passei do baixo para a guitarra – ensinei o Flávio, do
Capital, a tocar baixo e ele entrou na banda. Foi aí que comecei a usar letras,
porque eu tinha vergonha de cantar. E nessa segunda encarnação já apareceu a
Blitx, o que facilitava as coisas. Eles tinham um amplificador e nós, outro.
Juntávamos os dois, bateria e, com isso, tocávamos em colégios, festinhas,
festas de aniversário... Até que foi crescendo, crescendo, crescendo e...
novamente acabou o Aborto Elétrico (março 82). Eu briguei com o Fê por causa
da música “Química”. Nessa época, estávamos supersofisticados, ouvindo
sei lá o quê – Joy Division, essas coisas -, e eu cheguei com aquela música:
“Não saco nada de Química...”, e eles: “Pó, Renato, você está
atrasado...” Eu já tinha a primeira versão de “Baader-Meinhof Blues”,
estávamos ouvindo Comsat Angels, killing Joke, Metal Box mesmo. “Pó, você
está perdendo seu jeito de fazer músicas”, me dizia ele (Fê). “Essa música
é muito ruim.” E eu sabia que era boa pra caramba. Bem, o Fê estava mais
interessado em fazer camisetas. E eu ficava lá, pedindo pra ensaiar! Aí eu
disse: “Quer saber de uma coisa? Vou sair!” Aí virei o Trovador Solitário.
Abria as apresentações das bandas, feitas algumas vezes em cima de um caminhão.
Subia e tocava aquelas musiquinhas: “Dado Viciado”, “Eduardo e Mônica”etc.
E era gozado, porque todos os punks adoravam. O pessoal da UnB, os outros
jovens normais, digamos, detestavam. E eram musiquinhas tão bonitinhas! Não
sei como as pessoas não ouviam naquela época. Tava lá o cara cantando sua música,
eu chegava com meu violãozinho, tipo: “Poxa, eu sei que essas músicas são
boas. Um dia eles vão ver!”
Mas essa coisa de artista solo não te
satisfazia muito, não é?
RR
– Não. Eu queria mesmo era ter uma banda. Eu sempre quis ter uma banda. Aí
teve a festa do chapéu do André Muller e lá estava o Bonfá. Uma coisa
curiosa é que eu me lembro direitinho como conheci o Bonfá, o Fê, mas não me
lembro como conheci o Dado. O Bonfá tinha saído do SLU por diferenças
musicais e eu disse a ele: “Vamos fazer uma banda?” “Vamos.” E nosso
plano era assim: fazer um núcleo baixo e bateria e chamar todas as outras
pessoas para participar. Porque aí já tinha zilhões de guitarristas –
Zezinho, Phillipe Seabra, Loro, eu... Mas esse plano não deu certo
- não tinha lugar pra ensaiar.