» Do Aborto Elétrico ao Globo de Ouro - Parte I :: Æ

                                                                                                                                                 1976 – 1989

DO ABORTO ELÉTRICO AO GLOBO DE OURO*
PARTE I

 

 

Quando  tudo começou em Brasília, Renato, Dado e Bonfá mal poderiam imaginar que eles iriam se tornar o Legião Urbana, uma das bandas mais populares do Brasil.Passados treze anos, às vésperas de lançar Quatro Estações , o quarto LP, eles relembram as aventuras e desventuras da época em que Renato tinha vergonha de cantar, Dado rasgava as calças e Bonfá se arrepiava com os primeiros shows punks.

 

BONFÁ – Bem, o rock começou pra mim quando eu era ainda garoto – ouvia Rita Pavone no berço. Aí meus pais me deram uns discos com os sucessos da época. Eu tinha um gravadorzinho e minha primeira ligação foi com a percussão. Meu pai já tinha tocado aro de caixa em boate e me ajudou a comprar uma bateria. Meu primeiro disco de rock foi mesmo o do Who (The Story of the Who, coletânia de 76). Em Brasília, bem, não lembro. Ah, sim! Um a vez eu estava num festival lá num colégio onde tocaram Blitx e Aborto Elétrico (abril, 1980)... Bateu uma coisa muito forte! Fiquei todo arreiado!

 

RR – (dando uma de entrevistador) Por que você acha que se arrepiava?

 

BONFÁ – Pó, cara, eu me amarrava.. Não sei se porque eu gostava do som. Era visceral, demais! Aí juntamos eu e alguns amigos que estavam na platéia e: “Vamos forma uma banda?” (com Victor e André Killer, irmão do Fé, do Capital Inicial. A banda não tinha nome).  

RR – Vocês não achavam barulhento demais?

 

BONFÁ – Era mais uma coisa de distúrbio adolescente, que você canaliza para a música e assim se identifica. Ou seja, rock, 4x4, música que você ouve no carro.

 

DADO – Sei lá, chega a adolescência e você tem de tomar um partido – senão você vai ouvir música clássica e se tornar um cara bom. É difícil falar sobre isso. Acontece uma virada na tua vida na adolescência – são as drogas, a música e as meninas.

 

RR – É mais uma questão de inconformismo. Mas isso é gozado, porque eu lembro que na época da gente as pessoas não ouviam rock... (...)

 

Você chegou a fazer um programa de rádio, em 83, em Brasília, não? Você tinha oportunidade de colocar...

 

RR – (cortando) Nunca !!! Eles me despediram. Era hipertripper careta, um emprego mesmo. Foi assim: tinha um programa de jazz e eu fiquei superanimado porque fui chamado para faze este programa. Mesmo o jazz não sendo meu tipo de música, eu ia poder trabalhar, escrever textos... Duas semanas depois, o cara veio reclamar comigo: “Olha, Renato, você não entendeu muito bem”. Não era um programa de jazz e sim muzak. Tinha de tocar Ella Fitzgerald, “Summertime” – para o pessoal lá dos ministérios, que chega na hora do almoço em casa, liga o rádio e ouve duas horas de jazz-muzak . Era exatamente o que tinha de fazer, aquela coisa horrível! Tudo bem, eu lá dando a biografia do Chet Baker, falando que ele era viciado, e o cara no meu pé: “Não, Renato menos falatório e mais música”. Bem, resolveram me dar outra chance e fizeram um programa dos Beatles. E eu: “Oba! Ta pra mim!” E era um tal de tocar “Revolution” e tudo. E novamente o cara veio falar comigo: “Renato, você não entendeu. É pra tocar ‘Yesterday’, ‘Michelle’ ... essas coisas. Rock pauleira, não! ” O primeiro bloco que eu fiz era sobre os filmes dos Beatles. Então começava com “Hard Day’s Night”, depois “Help” ... mas eles não deixaram. E aí eu fui despedido. Acho até que nem foi por causa disso. É que eu era meio rebelde, ficava dando muitas sugestões, mudava as listas – eu ia até a discoteca e trocava tudo!

 

DADO – Brasília é um universo muito pequeno – você acaba conhecendo todo mundo do seu meio, todos os jovens. Havia duas facções: a da MPB – Milton Nascimento, Djavan, Caetano...- e essa outra, a depravada.

 

RR – Entre as pessoa que ouviam rock – gozado, porque são as grandes amizades que eu tenho até hoje - , o elo foi a música. Tenho um grande amigo em Brasília. Outro dia estávamos conversando e eu perguntei: “Como a gente ficou amigo?” E ele me contou que tinha voltado de Paris com uns discos e eu disse: “Oh, discos novos na cidade!”. Importados e tal. Aí eu fui lá catar alguns e ficamos amigos. Isso antes mesmo do punk, quando já tinha um pessoal que gostava de rock: Mas era uma, duas pessoas.

Naquela época, eu nunca tinha ouvido Velvet Underground!

 

DADO – Era sempre alguém que vinha de fora.. Brasília tem sempre alguém chegando e indo embora ...

 

RR – Tanto por ser filho de diplomata como por causa dos pessoal das embaixadas... Agora, começou mesmo, porque em Brasília tinha os jornaizinhos – Melody Maker, New Music Express ... – e eu sempre lia. Ganhava minha semana de 50 cruzeiros, cada jornal custava 5 e eu comprava dez – lia, lia e lia ... Ficava procurando entrevista com Led Zeppelin – se bem que na época eu não estava ouvindo Led Zeppein, e sim Joni Mitchell, Bob Dylan ...

 

Isso foi quando?

 

RR – De 76 a 78. Eu ouvia muito rock progressivo. Aí o progressivo acabou. É aquela velha história – já falei isso tantas vezes! O Rick Wakeman saiu do Yes, o Robert Fripp acabou com o King Crimson, o Peter Gabriel saiu do Genesis ... Então o Emerson, Lake and Palmer lançou aquele Works, que era horrível – não era tão horrível assim - ... e foi acabando e não apareceu nada. Comecei a ouvir anos 60 – Beach Boys, Jefferson Airplane, Bob Dylan – e descobri uma porção de coisas que não conhecia. Foi quando comecei a ouvir Leonard Cohen, coisas assim. Aí os jornais começaram a falar mal de toda essa gente, chamando-os de hippies velhos e apontando os Pistols. Até hoje eu tenho um Melody Maker com um texto sobre uma apresentação dos Pistols, onde um cara levou uma navalhada no olho etc. Isso começou a me interessar, porque eu ficava curioso: “Quem são? falam tão bem! Vamos ver o que que é?”. Eu tinha um professor de Inglês, chamado Ian, que viajava muito na época. Ele foi para a Inglaterra e eu perguntei: “O que está acontecendo lá?” E ele: “Está acontecendo uma coisa com Sex Pistols?!?!?!” Mas ele falou de um jeito que eu pensei: “Nossa que coisa horrível!” E eu continuei desenhando minhas guitarrinhas dos Beach Boys... Um tempo depois, lançaram no Brasil a coletânia Pop apresenta O Punk Rock, Television (1º LP, Marquee Moon), Clash (The Clash) e Eddie and The Hot Rods. Eu já sabias sobre as bandas de cor, mais ainda não tinha conseguido os discos. Um pouco antes disso, outro professor de Inglês – ele até se matou em São Paulo...(recordando) quando a gente fica velho é tão horrível! Tem gente que se matou... Bem, ele foi para lá e eu fiz uma lista de discos para ele trazer. Ele até contou uma história gozada. Foi uma tia dele quem tinha ido comprar os discos. Ela era uma dessas velhinhas riquíssimas e ficou horrorizada ao entrar na loja e ter de pedir discos com aqueles nomes (risos) ... Ele trouxe um livro cor-de-rosa que falava dos primeiros punks, com fotos e tudo... Era dali que eu tirava meus modelos – usava um grampo aqui na boca, outro aqui assim (aponta uma face do rosto). Eu furava de verdade! As pessoas ficavam horrorizadas! E, também, os primeiros singles do Sham 69, produzidos pelo John Cale. Dois minutos de música e eu ouvia o dia inteiro! Bem, aí tinha o Fé (atual baterista do Capital Inicial), que estudava na cultura inglesa e também tinha voltado da Inglaterra.Ele era meio – hippie – tinha barba, cabelo comprido, mas usava calças rasgadas. Uma coisa híbrida – hippie com punk. E Sex Pistols daqui, Sex Pistols dali ... até que pintou o dia em que eu estava na Taberna e veio descendo um punk com a namorada dele, um Sid Vicious loiro – era o Andre Pretorius. Eu cheguei nele e a primeira coisa que eu falei foi: “Você gosta do Sex Pistols?” E ele: “Sex Pistols! Yeah! Jóia!”.E começamos a trocar informações. Eu tinha acabado de receber o segundo LP do Clash (Give’En Enough Rope) e ele o primeiro compacto do PIL. Isso já devia ser 78. Então, bem, “vamos formar uma banda?” “Vamos!” Aí formamos o Aborto Elétrico – ele tocava guitarra e eu baixo. Porque nessa época tinha aquela coisa de “façam sua própria banda”. E eu fiquei enchendo meu pai para ele comprar um instrumento. Foi meio difícil, mas eu estava trabalhando e juntei uma grana, ele me ajudou e comprei um baixo.

 

Mas essa idéia já era antiga na sua cabeça, não é?E pra vocês, Bonfá e Dado?

 

DADO – Não, de jeito nenhum. Não tinha nada a ver. O Renato sim. Ele tinha idealizado até uma editora, que ele criou há dez anos para seus discos e sua banda.

 

RR – É, é antigo. Mas, primeiro, além de não encontrar músicos, os que eu encontrava não sabiam o que era rock ou não gostavam. Eu mesmo não sabia tocar. Fiquei um ano para tirar “Blackbird” dos Beatles. Era muito, muito difícil. Até que apareceram os Pistols, fazendo três acordes e falando: “Olha, vocês podem pegar um instrumento e fazer três acordes”. E era isso que a gente fazia. Começamos, eu e o Andre Pretorius, antes até do Fé entrar, por que a bateria não tinha chegado da Inglaterra. Ficávamos tocando a tarde inteira a mesma música – a dos Slaughter and the Dogs. Imagine uma banda chamada Matança e seus cachorros. Era o máximo! A gente adorava! Tinha esses, os Saints, Damned, Buzzcocks, mas o que a gente mais gostava, o mais fácil de tocar, era Ramones. Uma tarde inteira tocando “Now I Wanna Sniff Some Glue”!Parava, voltava. “Não é assim, pára, um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete, oito...não, pára, volta!”. Fazíamos apenas um lanche e voltávamos. Por que naquela época não tinha muita droga. A gente só pensava nisso – música e banda. E a turminha começou a crescer. Íamos para a Colina ,apenas umas três ou quatro pessoas que gostavam de rock: o Fé, o Loro (Também do capital Inicial, guitarra) e o Geraldo, do Escola de Escândalo, que era irmão do Loro. E ficávamos o tempo todo conversando sobre a vida, todos com 16/17 anos, falando dos pais, da namorada, tentando conseguir alguma coisa pra fazer. Colocávamos o carro dentro da quadra, abríamos as portas e ficávamos ouvindo, ouvindo direto! E grande parte deste materialera constituído das nelhores coisas. O André Muller (Plebe Rude) mandava as fitas da Inglaterra, gravava os programas de John Peel e por essas e outras ouvíamos coisas como Raincoats, Slits ... Nem sei mais onde foram parar. Por exemplo: quem tinha o primeiro single do Gang of Fourfazia as cópias, distribuía e assim foi indo, foi indo, foi indo até que começaram a entrar as meninas para a turma. Foi quando o Sid Vicious morreu, mais ou menos na mesma época em que apareceu o B-52’s. 79, acho. As datas eu não sei, mas foi logo que apareceu o Police, Two Tones, Specials, Selecter, Madness... As meninas vieram porque essa era uma música que elas poderiam dançar. Até então era só Sham 69, aquelas coisas. Eu, por exemplo, dançava batendo a cabeça na parede, pulava, rolava pelo chão...(risos)

 

DADO – Invadíamos as festinhas, animávamos de verdade. Então, se estava tocando um John Travolta em Francês, tirávamos e colocávamos nossas fitas. Para não assuntar, começava com Talking Heads...(...)

 

Quer dizer, tirando vocês, essa pequena turma, tinha alguma outra que chegou junto porque era radical, ou porque já estava ouvindo essas bandas? Houve alguma identificação com vocês?

 

RR – Não, tinham alguns amigos que sacavam porque gostavam de rock. Lembram do Puzi, do Rato? (perguntando ao Dado e Bonfá). Eles eram de outro lugar e, de repente, não se juntaram. Mas eu tinha alguns amigos que não eram punks por natureza e não sabiam de nada.(...) Em 79, conhecemos a Valérie – uma francesa –  e o Luiz Eduardo numa festa para o Gilberto Gil, onde ele mesmo não apareceu. Estávamos lá, toda a turma, e eles dançando tudo quanto é música, até as do Gil. De repente toca “Rock Lobster”, do B-52’s. Pra quê! Fizemos amizade na hora! Quando fomos vê-los de perto, ficamos alucinados com seus badges (buttons), que eram de verdade. Não havia isso no Brasil, ainda. Fazíamos os nossos com durepox, recortando as figuras das revistas, dos jornaizinhos. Agora tirando o rock, tinha diversas coisas que faziam com que a gente ficasse junto. Éramos um pouco rebeldes, inconformistas e o rock nos ligava. Mas acredito que muitas daquelas pessoas iriam ser amigas de qualquer forma, por afinidade, por tudo. Acontece que o lance das bandas sedimentou. E é gozado, porque era uma turma tão esdrúxula! Cada pessoa escolhia uma banda como sua favorita e usava o seu badge. No começo, andava todo mundo punk mesmo, rasgado. A Cris, por exemplo, levava o cachorro dela para passear na coleira e ela portando uma coleira, também. Isso em 79era um escândalo! A gente fazia essas coisas terríveis! Uma vez eu cismei de pintar meu cabelo – fiquei parecido o anjinho da Mônica. E tinha as prisões. Fui preso umas duas vezes, porque o pessoal achava que estávamos com drogas... Pixávamos a cidade inteira – letras de músicas, Sex Pistols – apesar de na época não ter pixação, grafite. Só no Rio, como o Celacanto Provoca Maremoto.

 

BONFÁ – Pixávamos o A, em forma de Anarquia, e o E, dentro, de Aborto Elétrico.

 

RR – Ficávamos ima tarde inteira procurando o que fazer.

 

DADO – Você saía da sua quadra, andava dois quilômetros, chegava num lugar e os caras estavam lá, com bateria, amplificador, baixo, guitarra, em pleno verão de Brasília. Porque Brasília no verão esvazia, não sobra ninguém. Só fica mesmo quem não pode sair. E naquele ano eu tinha repetido no colégio e tinha sido obrigado a ficar. Aí, eu e meus amigos fomos para uma lanchonete, a Foods, onde o dono emprestava uma tomada e dava sanduíche de graça para quem tocava. Eu fiquei ali do lado, sentado. E o Aborto começou a tocar. Não lembro se eu percebia alguma coisa, mas era uma barulheira infernal. Estava terminando o show – eu lembro direitinho – e o Gutje (Plebe Rude) pegou o instrumento para tocar Romeu e Julieta, que virou: “Romeu e Julieta/ que coisa mais careta/ Vai tomar no c*...”, alguma coisa assim. (...) Mas daí para você começar a pensar que aquilo era uma banda, que poderia virar isso ou sei lá o quê... Jamais passava pela sua cabeça. Você ainda era estudante...

 

RR – Tem o fato de ser jovem. Toda cidade falava. Eu lembro que a primeira apresentação do Aborto Elétrico foi num pequeno barzinho no Gilberto Salomão (80), onde só se vendia cana – chamava, inclusive, Só Cana. Tinha certas pessoas ligadas nos anos 70 – até mesmo eles – que deram muita força. E agente era muito entusiasmado. Se encontrássemos alguém para contar a história dos Pistols e o que esse Sid Vicious fazia, como era a história toda... Ou, nós mesmos, falando de como era bacana a gente tentar fazer rock’n’roll, reclamar da vida e tudo. Enfim, se encontrássemos alguém que nos ouvisse, despejávamos tudo. E invariavelmente pintava uma pessoa para dar uma força. (...) Fomos, levamos umas coisas, o Fé com caxumba, febre de 40 graus e, quando terminamos o set de cinco músicas, o pessoal reagiu com: “Ehhhhhh! De novo!!” Por que brasileiro gosta muito de zona. Então, dá-lhe zona. Eles não entenderam nada: todo mundo parado, assim (faz uma expressão de perplexidade). Aí tocamos as cinco músicas de novo e, pelo que soube, a cidade inteira falou disso depois. Porque, primeiro, ninguém tinha ouvido falar de grupo de música chegar e tocar de graça e ainda fazer aquele barulho. E o guitarrista loiro sangrando a guitarra. O Aborto Elétrico era assim – pham!!!. E não era rápido – era lento, tipo Pistols. Eu estava ouvindo uma fita outro dia e percebi como era lento: tipo MC5 e stooges. Aí, o que aconteceu? A cidade começou a falar. Nos colégios de classe média – Objetivo, Elefante Branco, Marista - , o comentário era: “Você viu, aqueles caras, são maconheiros, blá, blá, blá...” (...)

 

DADO – No colégio era legal ser amigo dos punks. Então, se alguém te via naquele show de final de semana, um playboy, por exemplo, logo dizia: “Ah! Ah!”

 

RR – Eu imagino o que deve ter acontecidono primeiro dia em que o Dado foi ao colégio, portando corajosamente um alfinete! Um alfinete só! Depois rasgou a calça um pouquinho, só um pouquinho...

 

DADO – Minha mãe usava minhas camisetas para pano de chão. E eu: “Cadê minha camisa dos Pistols?” E ela: “Aquele trapo?”

 

RR – Eu pegava de volta: limpava e vestia de novo. Por que a gente não usava roupa suja – era toda rasgada, mais limpinha.

 

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span style="mso-bidi-font-size: 12.0pt">BONFÁ O que bateu musicalmente para mim – eu lembro direitinho – é que desde garoto, com dez anos, gostava muito de Bill Halley, Little Richard e Beach Boys. Em 80, o irmão do Dinho tinha conseguido o álbum duplo ao vivo dos Ramones (It’s Alive,79). Quando ele botou na vitrola e eu ouvi aquilo, nossa! Era uma coisa simples e que bateu na hora. Eles tocavam “Do You Wanna Dance”, que eu conhecia só com Johnny Rivers, e provocou uma mudança musical muito grande. Tenho a fita até hoje!

 

RR – É gozado, porque as outras coisas assustavam: Damned assustava, Clash assustava, Buzzcooks assustava – tocava e todo mundo ia dançar. Mas Ramones foi o elo de ligação – todos gostavam.

Mas a turma virou mesmo quando Sid Vicious morreu. No começo, eram só cinco ou seis amigos. (...) As meninas tinham um estilo meio Go-Go’s. E o que a gente fazia? Nos encontrávamos toda noite, eu saía da universidade – estudava comunicações (80/81)...

 

DADO – eu fazia 2º grau.

 

RR – Aí juntávamos na Colina, colocávamos os carros, comprávamos um garrafão de vinho – foi quando começamos a beber. Antes, uma dosinha de caipirinha e ficava doidão. E ficávamos lá, a noite inteira, assim: “Como o mundo é belo! Gente , eu adoro vocês!”

 

DADO – Tinha uma sexta-feira que era de lei – Talking Heads, 77, a noite inteira. De lei mesmo, na época do Dado e o Reino Animal.

 

Então você já tinha banda? Por que você falou da lanchonete, que ficava lá olhando, mas não fez a ponte até aí.

 

RR – O lance era o seguinte: cada pessoa na turma tinha que fazer alguma coisa. Era como uma lei não escrita. Tinha o pessoal das bandas, apareceram os que faziam fotografias, os que ajudavam a fazer camisetas, os que faziam os instrumentos, os dos posters, os que colavam os posters, os que iam na Censura Federal para liberar as apresentações. Quando não faziam nada, perguntávamos: “Qual é a sua função na turma?” “Eu tenho carro.” Então, era a pessoa que tinha carro. Tinha os caras que faziam loló... Mesmo que você fosse da turma e não fizesse nada, imediatamente você queria fazer alguma coisa. E muitas bandas surgiram assim. (...) Teve a fase da benzina, mas descartamos rapidinho... Éramos meio metido a bestas, intelectualmente. Aproveitávamos muito o que a cidade tinha – era uma garotada com muita informação, os pais tinham livros em casa, todo mundo classe média alta e punksnos fins de semanas. Mas, como todos os punks, éramos pacíficos. A violência só apareceu com os skinheads. (...) Uma coisa que precisávamos era de pessoas que nos dissessem coisas assim: “Olha, o que fazem, é isso, vão em frente e façam etc.” Por que a gente só levava na cabeça. Todo mundo reclamava do que fazíamos. E, é claro, é bom ser rebelde, contra tudo e etc. Mas é legal quando pinta uma pessoa que te dá uma força. E era só dar alguma coisa para fazermos e a gente fazia. Isso foi uma boa experiência, porque, mais tarde, quando precisamos, soubemos como liberar um show da censura, como tirar alvará. (...)

 

Como foi a Semana de Rock Brasiliense? A Legião já existia, não é?

 

DADO – O guitarrista tinha saído há um mês e eu entrei.

 

RR – Aí aprendeu a tocar...

 

DADO – Eram as quatro grandes bandas: Plebe Rude, XXX, Capital Inicial e Legião.

 

RR – O Aborto já tinha acabado, há muito, muito tempo atrás. Acabou virtualmente quando o Andre Pretorius foi para a África do Sul servir o exército e matar negros. Eu passei do baixo para a guitarra – ensinei o Flávio, do Capital, a tocar baixo e ele entrou na banda. Foi aí que comecei a usar letras, porque eu tinha vergonha de cantar. E nessa segunda encarnação já apareceu a Blitx, o que facilitava as coisas. Eles tinham um amplificador e nós, outro. Juntávamos os dois, bateria e, com isso, tocávamos em colégios, festinhas, festas de aniversário... Até que foi crescendo, crescendo, crescendo e... novamente acabou o Aborto Elétrico (março 82). Eu briguei com o Fê por causa da música “Química”. Nessa época, estávamos supersofisticados, ouvindo sei lá o quê – Joy Division, essas coisas -, e eu cheguei com aquela música: “Não saco nada de Química...”, e eles: “Pó, Renato, você está atrasado...” Eu já tinha a primeira versão de “Baader-Meinhof Blues”, estávamos ouvindo Comsat Angels, killing Joke, Metal Box mesmo. “Pó, você está perdendo seu jeito de fazer músicas”, me dizia ele (Fê). “Essa música é muito ruim.” E eu sabia que era boa pra caramba. Bem, o Fê estava mais interessado em fazer camisetas. E eu ficava lá, pedindo pra ensaiar! Aí eu disse: “Quer saber de uma coisa? Vou sair!” Aí virei o Trovador Solitário. Abria as apresentações das bandas, feitas algumas vezes em cima de um caminhão. Subia e tocava aquelas musiquinhas: “Dado Viciado”, “Eduardo e Mônica”etc. E era gozado, porque todos os punks adoravam. O pessoal da UnB, os outros jovens normais, digamos, detestavam. E eram musiquinhas tão bonitinhas! Não sei como as pessoas não ouviam naquela época. Tava lá o cara cantando sua música, eu chegava com meu violãozinho, tipo: “Poxa, eu sei que essas músicas são boas. Um dia eles vão ver!”

 

Mas essa coisa de artista solo não te satisfazia muito, não é?

 

RR – Não. Eu queria mesmo era ter uma banda. Eu sempre quis ter uma banda. Aí teve a festa do chapéu do André Muller e lá estava o Bonfá. Uma coisa curiosa é que eu me lembro direitinho como conheci o Bonfá, o Fê, mas não me lembro como conheci o Dado. O Bonfá tinha saído do SLU por diferenças musicais e eu disse a ele: “Vamos fazer uma banda?” “Vamos.” E nosso plano era assim: fazer um núcleo baixo e bateria e chamar todas as outras pessoas para participar. Porque aí já tinha zilhões de guitarristas – Zezinho, Phillipe Seabra, Loro, eu... Mas esse plano não deu certo  - não tinha lugar pra ensaiar.

*trechos da entrevista a Sônia Maia, Bizz, abril de 1989, retirado do livro "Conversações com Renato Russo".

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